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  • Rildo Moraes

LENDAS Parte 2 (6 a 10)

6. MANAUS

Em 17 de fevereiro de 2013, Gil completou 18 anos e seu maior presente foi conseguir um estágio na mesma empresa em que ANA trabalhava – aliás, foi ela que conseguiu isso. O mundo deve ser mesmo cheio de surpresas! ANA era analista de sistemas e responsável por um projeto. Ela conseguiu colocar Gil na sua equipe – afinal, todos aqueles cursos que ele fez não foram em vão. Os dias passaram e ele demonstrava cada vez mais competência e inteligência. Três meses depois e Gil foi contratado como programador. Ninguém sabe do caso dos dois… pelo menos é o que eles acham!

O tempo voa. Seu pai continua o mesmo. Ora bebe e briga, ora não. Já acostumado com isso, Gil sobrevive em meio aos dramas alcoólicos do seu pai. Já estamos em setembro de 2013.

- Uau... Isso é incrível - exclamou ANA quando leu o e-mail do seu chefe. Gente! Parem o que estão fazendo, tenho uma notícia muito boa! Prestem atenção! Aquele projeto em Manaus foi autorizado!!!! Iremos para lá na semana que vem. Vamos mostrar que somos a melhor equipe do melhor sistema informatizado de segurança do mundo!

A equipe vibrou. Todos comemoraram. Será a primeira viagem de toda equipe...Uhuuuu.

Era 16 de setembro, uma segunda-feira. No Aeroporto Internacional de Manaus – Eduardo Gomes, desembarcam a equipe liderada pela ANA: Gil, JAIR e DIANA. JAIR é um homem de meia idade, de cabelo crespo e curto, muito divertido. Era o mais velho da equipe. DIANA é uma moça mais reservada, de cabelos levemente cacheados e compridos. Todos estavam empolgadíssimos e muito alegres.

Pegaram um taxi para o Lion Hotel de Manaus na avenida Sete de Setembro. Após se instalarem, saíram para lanchar. Que calor! Eram 14h no horário local, mas para eles, eram 15h, já que saíram de Brasília às 12h e são 3h de viagem, mas como tem fuso horário de -1h, então, não chegaram as 15h, mas 14h! E chegaram com fome. Mas não se aventuraram a andar muito pela quente e desconhecida cidade. ANA pegou informações no hotel e foram a uma lanchonete próxima. Por exigência dela, voltaram cedo para o hotel, para se apresentarem exatamente as 8h da manhã na empresa Lux Biotecnologia.

Como previamente combinado, os meninos ficaram num apartamento e as meninas em outro. No outro dia, JAIR acordou sonolento, era a ANA ligando no seu apartamento, ela já estava tomando café da manhã.

- “Meu fio”, disse JAIR para Gil, que estava quase acordando devido a ligação telefônica. ANA já está tomando café e chamando a gente! Sua namorada é fod*!

Gil arregalou os olhos, fez uma pausa, engoliu a saliva e tentou fazer disso uma brincadeira:

- Eu? namorando a ANA? Tá maluco? Nada a ver eu e ela!

- Tá bom, meu “fio” - respondeu seu amigo com um sorriso de quem não quer discutir o óbvio.

Gil ficou inquieto. Ele sabia que ANA não queria fofocas sobre o namoro deles na empresa. E ficou pensando: “mas eu não falei nada!”. Por fim, se arrumaram e desceram até a área do café. Lá estavam as meninas. Logo todos estavam no saguão do hotel aguardando o Uber que pediram. Chegaram um pouco antes das oito horas. E foi somente às 8h30 se iniciou a reunião. Conduzidos por uma jovem recepcionista, entraram numa sala de reunião ampla, com uma mesa de vidro e cadeiras metálicas com estofamento, havia um quadro branco, projetor de imagens, uma mesinha com notebook, um vaso no canto com uma folhagem verde muito bonita e um ar condicionado bem gelado! Um senhor alto, cabelos curtos, pele levemente avermelhada se aproximou sorrindo. Estava vestido com calça social cinza, sapatos pretos e devidamente engraxados e uma camisa branca com mangas arregaçadas. Usava uma gravata preta, com traços cinzas. Ele se apresentou:

- Bem vindos. Perdoem a demora. Sou o MÁRCIO , diretor-geral da empresa. Este aqui é TACIANO, o gerente de informática, ele irá acompanhar o trabalho de você e auxiliar no que for necessário.

TACIANO era um homem de uns 40 anos, cabelo e barba rala, moreno e muito simpático.

Após as apresentações da equipe de Brasília, feita pela ANA. Começaram a discutir os preparativos do projeto. O senhor MARCIO fazia solicitações que não constavam na proposta do contrato assinado, e ANA teve que ter muito jogo de cintura para poder iniciar o trabalho, tal como foi contratado.

Foi uma reunião breve. Em seguida houve uma reunião na sala do senhor TACIANO , onde detalhes técnicos do projeto foram discutidos e definiu-se quem acompanha quem na fase de implementação do sistema de segurança. Outros detalhes técnicos foram acertados.

No horário de almoço o TACIANO os convidou para um restaurante muito agradável ( e caro, como achou o Gil - “amanhã não volto aqui” , disse em pensamentos). após o almoço o TACIANO resolveu dar uma volta rápida de carro para apresentar um pouco de Manaus. Passaram próximo ao majestoso Teatro Amazonas que foi inaugurado em 1896 e o impressionante Monumento à Abertura dos Portos às Nações Amigas, feito de mármore, granito e bronze. Inaugurado em 1900.

Não tiveram tempo de sair do carro, pois ANA tinha pressa em começar o trabalho. O período da tarde continuaram as reuniões e discussões. Nos dias posteriores, o trabalho de instalação de programas exigiu muito da equipe de Brasília devido às configurações e às adaptações para aquela região. Havia uma certa tensão no ar. Nada estava fácil. Motivo pelo qual o almoço era sempre rápido e ocorria sempre às 13h e sempre na companhia simpático do TACIANO . Não tinham tempo para passeios, pois sempre voltavam para o hotel entre 21 e 22h.

No almoço do último dia, todos estavam tranquilos, pois tudo estava funcioanndo bem. O TACIANO contava outra estória da floresta quando fez o seguinte comentário:

- Ah vocês devem estar cansados das minhas histórias da floresta, mas também, eu nasci um Eirunepé - uma cidadezinha perdida na floresta!

- Eirunepé???!!! - exclamou Gil - Onde fica isso???

Todos se espantaram com a postura do Gil, pois quase pulou no colo do TACIANO. Depois de tantas perguntas, Gil descobriu que existia uma cidade com esse nome no meio da floresta. Era conhecida como Eiru Nepé e agora, como Eirunepé.

“Loucuras do Gil” pensava Ana enquanto voltavam para a empresa.

De volta ao trabalho, Gil aproveitou para verificar na Internet a questão do equinócio. Arregalou os olhos: “É hoje, dia 22 de setembro!!!!! E agora???” Descobriu que havia vôos semanais de Manaus até Tefé, sendo ainda necessária uma conexão até Carauarí e depois até Eirunepé. Entretanto, ele descobriu também que, infelizmente, não havia mais voos para Tefé naquela semana.

AS 15h estavam se despedindo de todos na empresa. O MARCIO e o TACIANO estavam satisfeitos. O sistema estava perfeito. Saíram da empresa e foram ao hotel, pois já tinham retorno marcado para Brasília ainda as 18h.

Após arrumarem todas as malas, se dirigiram ao aeroporto. Estavam felizes. Tudo correu como planejado, todos estavam vibrando, exceto Gil pois não lhe saía da cabeça a possibilidade de conhecer Eurinepé.

7. DESTINO: EIRU NEPÉ

Chegando ao aeroporto, Gil disse que queria olhar uma loja e se desligou do grupo. Sem dar muitas satisfações, o que irritou bastante a Ana. Na verdade, ele foi até o guichê de vôos regionais. Sabia que não tinha vôo para Eirunepé, mas também tinha certeza que se não fosse averiguar pessoalmente, iria se arrepender para sempre. Isto era apenas para deixar sua consciência livre, pois se no futuro sua mente lhe cobrasse, diria então que realmente não havia mais vôos para aquele lugar. Chegou até o guichê e perguntou sobre voos para Eirunepé. Mas a resposta veio em forma de uma pergunta inquietante:

- Égua. tu vai lá na caixa-prego? [6]

Gil fez cara de espanto e retrucou: “Ah? Não entendi”. Ela riu e disse:

- Ê, caroço[7]. Não era para ter, mas me informaram agorinha que tem um especial que vai direto pra lá. Sai em 30 minutos!

Meu Deus! E agora? Por essa ele não esperava! Havia um vôo! Perdê-lo significaria perder a possibilidade de saber o que eram realmente aquelas luzes que tinha visto no início daquele ano. Significaria também perder um sonho que sempre trouxe dentro de si, o sonho de descobrir se realmente existe algo a mais nesse universo. Pensa rápido! Pensa rápido! - dizia Gil a si mesmo – Já sei, transfiro minha passagem de retorno, vou a essa cidade, vejo o que tenho que ver e volto para cá, daqui retorno direto para Brasília. Assim ele concluiu

Quando retornou junto ao grupo, expôs à ANA, a responsável pela equipe, a sua intenção. Faltaria um dia do trabalho, mas poderia repor num sábado ou domingo, até mesmo à noite ou durante o horário de almoço. Deixou bem claro que sua decisão era irreversível!

O grupo todo estranhou o comportamento de Gil, mas não havia mais tempo para discussões, Gil já havia comprado a passagem e o vôo já estava quase saindo.

ANA olhava decepcionada para ele. Seu comportamento beirava a loucura e a indignava bastante. O que ele procuraria numa cidade perdida na floresta?! JAIR e DIANA diziam que o calor de Manaus derreteu o cérebro deste jovem. Riram bastante.

Gil ficou constrangido, ele não queria decepcionar a pessoa que ele mais gostava. Cabisbaixo ele ficou de costas para o grupo, ANA colocou sua mão sobre o ombro do rapaz e perguntou de forma suave:

- Você tá falando sério mesmo?

Ele saiu correndo para pegar o seu avião. Não correu devido ao horário, correu por medo... Medo de não ser capaz de manter em pé sua vontade, medo de se enfraquecer frente as opiniões alheias. Seu coração estava apertado, algo lhe dizia para correr atrás dos seus sonhos, mas o medo - travestido de sensatez - lhe aconselhava a ficar. No meio desse tumulto interno ele correu até o seu destino. Varios medos o assombravam: medo de fazer uma aventura que lhe saia caro, medo de perder a namorada, o emprego, a amizade e o respeito dos colegas. Mas mesmo com medo, ele fez o que tinha que ser feito, ele foi.

Seguindo as orientações da moça do guichê, Gil andou bastante para embarcar num pequeno avião. Estava bem distante da área de embarque, onde grandes aviões aguardavam seus passageiros. Na verdade, estava quase no fim do aeroporto. Era um Embraer EMB-810 Seneca, um avião bimotor comercial para 7 passageiros. Entrou em silêncio e nem observou quem já estava lá. Sentou-se, pôs a mão na cabeça e lembrou desesperado: “Não fiz a transferência do meu voo de Brasília, estou ferrado! Que merd* tô fazendo? Vou ter que gastar uma grana que não tenho! Vão me despedir por uma idiotice minha!” - Esses e outros pensamentos negativos e desesperados o atormentava. Seguiu as orientações do piloto sobre cinto e olhava inquieto pela janela, no momento programado, o pequeno avião decolou. Logo só via a poderosa floresta amazônica. Sem opções, se acalmou.

- Você sabe quanto tempo irá durar nossa viagem? - perguntou uma jovem simpática, de pele levemente morena. Ela estava sentada logo atrás dele e se inclinou ao lado para poder perguntar, deixando cair sua longa cabeleira negra. Ela sorria e seus olhos brilhavam. Parecia ter uns 16 anos!

Gil não sabia o que responder,

- Me disseram que são 4 horas e meia - respondeu um homem de aproximadamente 50 anos, calvo, cujos poucos cabelos eram grisalhos. Simpaticamente se apresentou ao demais. LUIS CARLOS era seu nome.

A jovem simpática se apresentou: CYNTHIA e Gil também.

- Nossa, a floresta é imensa! - exclamou Gil ao perceber que os outros dois passageiros também olhavam admirados pela imensidão do verde. E assim, gradativamente a conversa começava a entrosá-los.

- Que estranho, a velocidade aumentou muito. Ou é impressão minha? - perguntou LUIS CARLOS .

Repentinamente, o piloto que estava de óculos escuros virou-se para trás, em direção aos três passageiros. E, diante do olhar espantado deles, revelou: ”não preocupem, meu povo, tá no piloto automático”.

LUIS CARLOS não se conteve: - Piloto automático?! Esse teco-teco têm piloto automático?!

[6] Gíria local, similar a: Nossa! Você vai longe hein!

[7] Gíria local, similar a: você deu sorte!

8. NAYMAÚDE

O piloto deu uma gargalhada e repetiu “Um teco-teco!” Então, depois da boa gargalhada, disse: “De fato, não tinha! Mas Arlek providenciou isso. Por isso esse aviãozinho aqui é diferente das demais. Aliás, foi ele que modificou o motor também! Perceberam que a velocidade foi triplicada? Além do mais, não usamos combustíveis convencionais, mas uma geléia esverdeada que permite quase 100 horas de vôo!”

Isso criou bastante estranheza no grupo... As perguntas borbulhavam: “O que está acontecendo? Onde está nos levando? Quem é Arlek? Que avião é esse? Quem é você exatamente?”.

Pacientemente o piloto tirou seus grandes óculos escuros.

- Meu Deus! - exclamavam os passageiros de uma só vez.

- O mendigo! - exclamou Gil.

- O carteiro! - exclamou Luís Carlos.

- O homem que foi atropelado! - exclamou Cynthia.

Uma admiração geral surgiu. Após isso, um silêncio perturbador tomou conta, logo se deram conta que todos ali conheceram o piloto em situações diferentes, e ficou claro que todos estavam atrás do mesmo objetivo: participar da reunião que estava num bilhete deixado para ele! Colocando o óculos novamente, o piloto tentou acalmá-los:

- Acalmem-se, meu povo, vou contar o que está acontecendo e, antes de tudo, saibam que esse avião irá retornar depois de uma hora no solo e vocês poderão voltar para suas casas. Nenhum mal irá acontecer com vocês, Oh, meu povo, deixe me apresentar, sou Naymaúde, sou um coletor - sou o responsável por coletar, ou melhor, buscar, pessoas como vocês! Vocês três têm algo em comum: são pessoas que buscam o conhecimento sagrado, querem respostas e não se contentam com meias-verdades. Porém, perderam-se nos labirintos de seus próprios dogmas, conceitos e supostas verdades. Não é verdade? Porém sei também que o grau de amadurecimento é difícil de ser medido, portanto, corremos o risco de trazê-los no momento errado. Isso será uma pena! Entretanto, meu povo, espero que tenham, pelo menos, a coragem para ouvirem o que nosso mestre tem para dizer. Juro pela minha Kobak [8] que o retorno ocorrerá ao final da conversa com o Mestre. Já vou deixar claro, não iremos descer exatamente em Eirunepé, pousaremos perto, em outro local, entre o rio Jutaí e Itaguaí. Já falei, meu povo, não tem nada a temer. Quanto a Arlek, ele é nosso assessor de assuntos tecnológicos, não estará lá, mas é um sujeito muito interessante.

Gil estava atônito - olhos arregalados, boca semiaberta. Cinthya parecia não acreditar no que ouvia. Luis Carlos apenas sorria.

Ninguém falava nada e então, após uma pequena pausa, o piloto perguntou: “E aí, meu povo, sabem por que estão aqui? Porque estão cada vez mais cientes que são uns estranhos dentro da sociedade em que vivem. Vocês são diferentes!”

- Então, quem nós somos? - perguntou Luis Carlos.

- Vocês... Vocês são Purayas [9]! Embora todas as pessoas tenham laços com as forças superiores ou inferiores, poucos buscam suas origens e vocês estão buscando, não é mesmo?!

- Continuo não entendendo... o que significa Purayas? Que grupo é esse que diz que pertencemos? - continuou Luis Carlos, ja inquieto, como os demais.

- Muito bem, meu povo, vou tentar ser o mais claro possível. Pertenço a um grupo chamado Kyan-pô. sou um Kiraya, ou seja, um buscador avançado nos estudos, um guerreiro. Os Purayas são aqueles que estão iniciando esses estudos. Minha função é colocar vocês frente a frente com essa filosofia, que irá saciar a fome e sede pela Verdade, mas não de forma simples, exigirá esforços. Kyan-pô é uma escola de guerreiros sagrados, esta é a verdadeira linhagem a qual pertencem, por isso eu os trouxe. Se vai ficar ou não, é decisão de cada um.

- Com licença. Kirayas? Purayas? Não tô entendendo - falou Cynthia.

- Os Kirayas são guerreiros que lutam para acessar a Verdade, embora alguns lutem também para manter o equilíbrio das forças. Puraya é todo aquele que, sendo da linhagem dos Kirayas, ainda não têm condições de atuar como tal, ou seja, um Puraya é um protótipo de um Kiraya, é uma criança. Alguns Purayas ficam por muito tempo adormecidos no mundo, se contentam com leituras de livros espiritualistas e esotéricos, assistem palestras e vídeos - mas sabem que no fundo, não sabem nada Outros ficam agoniados, por isso se envolvem com diferentes instituições, seitas ou religiões, mas nunca ficarão satisfeitos. Contudo, um dia despertarão para suas verdadeiras origens. E esse é o dia de vocês!

Intrigado, Gil questionou:

- Na boa...eu acho que vim enganado. Não tenho buscas assim, nem religião eu tenho!

Naymaúde riu. Olhou profundamente nos olhos do Gil e disse:

- Sabia que sua angústia silenciosa para entender o mundo é causada pela alma de um kiraya gritando dentro de você?

Cinthya levantou a mão.

- Diga, senhorita.

- Você sempre fala no masculino...e porque estou aqui?

- Mil perdões! Homens e mulheres são iguais em combates sagrados. Observem, não estou me referindo a lutadores - pessoas treinadas para brigas. Falo de guerreiros sagrados, homens e mulheres que são capazes de se iluminarem e ajudar outros a se iluminar E nisso a mulher cumpre um papel muito importante, mas isso já é outro assunto. Bem, antes de continuarmos a conversa, deixem-me verificar algumas coisas no painel, afinal esse é meu primeiro vôo!

- O queeeê!! - gritaram em coro os passageiros.

- Sim, meu primeiro vôo... Com vocês, meu povo!

O piloto, rindo, virou sua cadeira para frente, ficando assim, de costas para seus passageiros. Eles se entreolhavam numa mescla de sentimentos: pareciam assustados, felizes, preocupados, ansiosos... Depois de uma longa pausa, Luis Carlos comentou: Meu Deus! Isso parece um sonho! Há anos que me sinto perdido e agora estou prestes a encontrar o meu grupo! - tamanha emoção lhe trazia lágrimas aos olhos.

- Estou assustada! - dizia Cynthia - não sei se estou preparada para isso agora. E a nossa vida, como vai ficar?

­Gil também não se conteve e pensou: “Ai.. ai… onde fui me meter?”

Os comentários foram calados pela voz do piloto:

- Segurem-se pessoal, vamos fazer algumas manobras um pouco delicadas... E logo, logo estaremos em terra.

Os passageiros estavam muito inquietos. O piloto começou a assobiar, imitando um pássaro. Seu canto era suave e muito agradável. Os passageiros se aquietam para ouví-lo melhor. A velocidade estava diminuindo. Alguns minutos depois, Gil comentou:

- Poxa, sinto-me mais calmo, mas ainda tenho medo.

- Normal, sempre há medo quando há novidades – sentenciou Cynthia.

- Ah-há, a senhorita está certa! - falou Naymaúde, sem olhar para trás - porém o medo em excesso é um obstáculo que deve ser vencido. E eu até diria que ele é um dos primeiros a ser enfrentado, junto com a inércia.

- Inércia? exclamou Cynthia.

- Sim, inércia! A incapacidade de ir atrás daquilo que você é realmente. Ops, meu povo, segura que vamos pousar!

Do céu viam um pequeno vilarejo com uma pista de pouso no meio. Aquela pista de terra não era exatamente um tapete acolhedor e a aterrissagem foi feita com muitos solavancos e derrapagens. Assustados e ao mesmo tempo admirados com tudo, os passageiros desceram do avião.

Uma linda índia os aguardava:

- Bem-vindos, sou Janaina, me sigam...vou levar vocês até o mestre. Vamos? - Assim falou uma india simpatica e bonita que aparentava uns 35 anos. Possuía pele bronzeada, cabelos longos, vestia um vestido curto e simples que permitia mostrar alguns desenhos de serpentes nos braços e nas pernas.

Surpresos, mas ainda com medo, seguiram Janaina. Por onde passavam recebiam saudações em forma de sorriso, um aceno com as mãos ou um inclinar da cabeça. Respondiam assim também. Isso acalmava a todos, mas também deixava uma certa estranheza no ar. Afinal,. quem eram aquelas pessoas?

Logo, chegaram até uma grande e estranha pirâmide de pedras.

[8] Ele se refere a uma Espada de Cristal. Trata-se de um conhecimento perdido. Os antigos mestres do kyan-pô falam dessa espada como algo capaz de manipular os quatro elementos (ar, água, fogo e terra). Os mestres modernos entendem nela uma alegoria para o poder da Vontade. Mas tudo é especulação.

[9] A palavra, em sí, significa "criança".

9. AROK-TA-BEISH

Ao entrarem na pirâmide se depararam com um pequeno salão e ficaram boquiabertos. O interior não se parecia em nada com o que imaginavam olhando de fora. Era de uma beleza indescritível. Paredes lisas, ricamente ornamentadas com pinturas coloridas. A luz do sol, transpassando cristais que estavam em posições estratégicas, criaram lindos efeitos de cor no ambiente. Gil não conseguiu evitar e passava a mão nas parede e nas pinturas, até que um olhar da Janaina o inibiu. Através de corredores semiescuros, foram levados até uma outra sala. Iluminada por estranhos cristais, seu interior era ricamente decorado com maravilhosos vasos feitos de pedras polidas, haviam de diferentes tamanhos, todos com plantas e flores. Havia estranhos objetos de arte, alguns pareciam indígenas outros, alienígenas! Havia em uma parede, uma textura que impressionava a todos.

- Meu Deus! Essa paredes são de plástico! - exclamou Luís Carlos, enquanto tocava delicadamente com as mãos.

- Não, não, não - corrigiu Janaina - é resina natural, plantas da Amazônia. Eu vou sair agora. Comam frutas e bebam água - disse isso enquanto apontava pra uma mesa no canto da sala. Apenas aguardem o mestre Arok-ta-Beish - acenou com a mão e saiu da sala.

O grupo estava assustado e, todavia, curioso. Mantinham os olhos arregalados e faziam comentários sobre as esculturas de madeira que assemelhavam-se a totens! Havia vasos com flores frescas que exalavam um perfume gostoso que se mesclava ao aroma que surgia de um pote onde se queimavam algumas ervas aromáticas. No centro havia um tapete de palha com desenhos geométricos e pequenas almofadas estavam colocadas formando um círculo sobre o tapete. Havia um silêncio no ar, só quebrado pelo grito de “uau, que gostoso” dito pelo Gil que comeu uma adocicada fruta da floresta. Cynthia olhou com desaprovação e Luís Carlos foi tomar água.

Minutos depois chegou um negro alto, forte e de cabelos e barbas brancas e curtas. Possuía olhos vivos e um sorriso simpático. Nada falou e todos perceberam que ele era Arok-ta-Beish. Sua presença impunha respeito, demonstrando poder e amor. Esses visitantes já haviam reparado nas roupas excêntricas que as pessoas usavam, mas esse negro vestia uma túnica tão branca que parecia ser impossível mantê-la assim no meio daquela floresta. Seu cinturão parecia ser de ouro e trazia estranhos desenhos. Calçava sandálias de couro. Possuía braceletes que pareciam prata, cheio de desenhos de sóis, luas e estrelas. Apoiava-se em um cajado de madeira vermelha onde se via uma serpente e uma águia ricamente entalhados. Fez sinal para que todos se sentassem nas almofadas e sentando-se em seguida, começou a falar. Sua voz era tão límpida e clara que parecia um canto e não um discurso. Assim começou a conversa:

- Desculpe se essa viagem causou algum desconforto a vocês. Peço que abram seus corações e não suas mentes, pois o que vou falar é para alma e não para o intelecto. Vou começar contando quem nós somos e porque vocês estão aqui... – fez uma pausa, olhou carinhosamente para aquele grupo assustado e continuou: saibam primeiro que ficar ou não aqui depende apenas da vontade de vocês. Nós somos Kirayas, guerreiros sagrados, guardas de honra de Melquisedeck[10], o sacerdote imortal. Toda vez que Shambala[11], a capital do mundo, é atormentada pelas forças negativas, os Kirayas saem para defendê-la. Como soldados, somos treinados para diferentes tipos de combates, em diferentes dimensões e regiões. Mas, lutar é apenas uma forma de provarmos o quanto somos incompletos. Mas quando se luta contra si mesmo (e esse é o nosso maior objetivo) podemos nos transformar em seres completos, em Nirayas. Esses já não lutam, pois estão muito acima das dimensões conhecidas. Todo grande Kiraya acaba se convertendo em Niraya e abandona seu posto, por isso, um pouco antes de surgir um novo Niraya, chamamos os Purayas – pessoas que serão iniciadas nas artes - para treinarem e ocuparem o lugar do Kiraya. Como poucos Purayas conseguem se tornar Kirayas, chamamos vários Purayas para testes. Existem doze comunidades como essa espalhada pelo mundo e cada comunidade chama diversos Purayas. Há épocas em que de vinte Purayas convidados conseguimos só um Kiraya... há épocas em que não conseguimos nenhum! Não quero dizer que todos vocês não possam se converter em Kirayas, mas adianto que é uma tarefa muito difícil. Vocês estão aqui porque trazem no coração uma marca, a marca que demonstra que um dia já foram guerreiros e por isso, acreditamos que já está na hora de juntarem-se a nós.

Houve mais uma pequena pausa e então continuou: vocês veem de um mundo efêmero, onde pessoas lutam por status ou simplesmente por comida; um mundo onde trabalham como formigas e como formigas são esmagados pelo destino. Vivem uma vida que não faz sentido, comem uma comida que não faz sentido, trabalham num ambiente sem sentido, fazem sexo sem sentido...e ainda questionam porque não são felizes.

Fez mais uma pausa e olhava admirado, tal como uma criança, os semblantes ora assustados ora felizes dos visitantes. Depois continuou: A vida, no seu incessante sobe-e-desce, faz reis transformarem-se em mendigos e transforma covardes em gloriosos combatentes, mas raramente se traz as lembranças do passado. E isso é bom, pois assim somos capazes de conviver com antigos inimigos que estão colocados ao nosso lado para redimirem seus erros. Embora vocês não se lembrem exatamente o que foram, tenho certeza que há uma angústia silenciosa dentro de cada um de vocês que se deve ao fato de estarem afastados do seu verdadeiro caminho. Temos o mesmo caminho, o caminho do guerreiro, do guerreiro luminoso. Em resumo, considerem que estão sendo convidados a participarem de nossa Ordem. Todo ser humano tem direito a optar pelo que quer fazer. O livre-arbítrio é um dom divino que merece respeito. Mas, lembrem-se: não haverá outra ocasião!

Gil não se conteve e perguntou:

- O que será de nós caso não consigamos nos tornar Kirayas?

Cinthya, levantou o braço e após o aceno do mestre, questionou:

- E o que será de nossa família, trabalho e escola enquanto estivermos sendo treinados aqui?

Luis Carlos estava calado e lágrimas saiam de seus olhos.

Arok-ta-Beish sorriu e respondeu: Estamos sujeitos a fracassos, porque não somos perfeitos. Caso fracassem, não há punição, pois o próprio fracasso é a punição. Se não conseguirem se tornar Kirayas, voltarão ao seu dia a dia e dirão apenas que nós, os Kirayas, somos loucos. E em pouco tempo esquecerão de nós e nós esqueceremos de vocês. Quanto à pergunta dessa jovem, serei mais claro: o treinamento não ocorre aqui, ocorrerá na cidade de vocês, junto à escola, à família e ao trabalho. Somente quando se tornarem Kirayas é que poderão conviver em nossas comunidades.

De repente, surgiu pela porta um senhor alto e bem forte. Seus cabelos ruivos mesclados com brancos eram longos e trançados. Possuía uma barba espessa. Trajava um ‘vestido’ sem mangas cujo tamanho lhe chegava até um pouco abaixo de seus joelhos, no meio, um cinturão cheio de estranhos símbolos, que sustentava uma grande espada. Calçava uma sandália que lembrava os antigos romanos. Fez um estranho sinal com a mão e Arok-ta-Beish diz:

- Arcrus me chama, terei que sair agora. Fiquem à vontade para caminharem pela nossa comunidade, em breve estarei com cada um de vocês.

Todos entreolhavam-se e, ainda assustados, permaneciam em silêncio. Ninguém ousou sair da sala, mas observaram atentamente Arok sair. Realmente ele parecia não pisar no chão!

[10] Citado no Velho Testamento (Gênesis 14:18 "E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo" e no Salmo diz: "Jurou o Senhor, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque"). Ele interagiu com Abraão. Diz-se que não teve ascendência nem descendência 9sem linhagem!), a quem a história atribui-lhe características sobre humanas, divinas. Alguém de enorme valor que instruiu os povos e lhes deu a civilização. Na Epístola aos Hebreus (6:19) se diz que Jesus faz parte da 'Ordem de Melquisedeque". Daí que os antigos Kirayas eram protetores dos conhecimentos e mistérios desta Ordem.

[11] Também conhecida por Agartha.

10. UM PASSEIO E UMA DESCOBERTA

- Meu Deus! Isso é real? - exclamava Luís Carlos enquanto colocava as mãos para cima, num gesto emocionado.

- Vamos sair? - propôs Cinthya, já se dirigindo até a porta.

Os rapazes a acompanharam. Ao olharem para fora, percebiam tipos diferentes indo e vindo. A comunidade não parecia grande, mas muito diversificada. Havia orientais, negros, índios, brancos…

Os rapazes estavam temerosos quando Cynthia falou:

- Amores, quero dar uma volta sozinha... Quero tentar entender o que está acontecendo dentro de mim - disse e já se dirigiu à Janaína, que de longe acenou para o grupo.

Luiz Carlos foi bisbilhotar uma estranha construção em forma circular.

Sozinho, Gil decidiu seguir uma trilha contornada com pedras amarelas. Embora temesse pelo lugar desconhecido, ainda assim, um estranho sentimento de ‘estar em casa’ o impulsionava a caminhar. Seguia em passos lentos, observando aquele mundo diferente, mas estranhamente familiar. Chegou até um riacho onde havia crianças brincando. Sentou-se junto a uma pedra e ficou olhando para aquelas crianças sorridentes, e tal como já havia observado, havia crianças que pareciam ter vindo de diferentes países, tamanha era a diversidade… mas as gargalhadas, eram comuns! Jogavam uma bola de látex branca e muito saltitante.

Pensava muitas coisas. Nunca teve uma busca espiritual, no máximo, fez catequese a cinco anos atrás e sumiu da igreja. Ainda assim, sempre achava que nascer, crescer, procriar, envelhecer e morrer era muito pouco, não fazia sentido. Nos momento que estava sozinho e tranquilo, não era incomum surgir perguntas do tipo: qual o sentido real da vida? Deus existe?

E agora se questionava: isso que estou vivendo é um sonho ou é real?

A bola bateu dele, assustando-o e tirando de suas divagações. E antes de se movimentar para pegar a bola e jogar às crianças, uma pequena criatura em forma de uma formosa donzela, pegou o que lhe seria uma gigantesca bola e arremessou no rio, para as crianças continuarem a brincar.

E do nada, chegou uma linda indiazinha de vestidinho verde na margem do rio e gritou para as demais crianças:

- Gente! Tá tendo Pon-Sai [12]!

Todos saíram correndo do rio e Gil a interceptou assustado:

- Uma criatura aqui!!!! parecia uma mulher em miniatura!!! Falava assustando enquanto apontava para o local onde aquele ser estava.

- Ah, deve ser a Lira, ela é um elfo [13]. Vamos lá ver o Ponsai - disse aquela agradável indiazinha que logo se pôs a correr.

Lá estava Gil, olhos arregalados, boca aberta… a indiazinha voltou, pegou sua mão e o levou a uma clareira onde havia alguns homens e mulheres enfileirados lateralmente e potes de barro, também enfileirados lateralmente, que estavam a uns 50 metros de distância, na frente deles. Havia jovens e velhos. Um velho de traços orientais, cabelos e barbas finas e compridas, vestido com uma túnica preta e faixa branca, mantinha a ordem. Ao seu comando, aquela tropa enfileirada fazia movimentos com os braços e ao se deferir um soco no ar, o pote que estava distante, mas na sua frente, estourava. E as crianças se divertiam trazendo novos potes. Uma nova sessão de explosões de potes se verificou. E, dessa vez, apenas algumas pessoas movimentaram-se mais do que deviam e por isso, recebiam novas orientações. Gil estranhou, mas se divertiu ao mesmo tempo em que tentava entender qual era o “truque”. Após outras explosões, fez uma nova reflexão, em voz alta: “A força da mente é incrível!” e por isso foi abordado por uma jovem negra que estava do seu lado:

- Você não é um Kiraya, não é mesmo?

- Como descobriu? .

Ela riu e disse: “Meu nome é Mizy e já pensei como você também. a mente é fantástica, mas há mais coisas além da mente!”

- Prazer, sou Gilmar… o que tá acontecendo aqui?

Ela ia responder quando aquele senhor que coordenava o treinamento estava - com estranhos poderes - remontando os vasos quebrados e dizia:

- Observem isso meus queridos, destruir é fácil, mas construir é mais difícil e muito mais importante. Até uma criança é capaz de quebrar um pote jogando-o no chão, mas reconstruir exige muito mais conhecimento. Todo guerreiro deve saber também se reconstruir, pois a vida pede isso!

Gil sentia-se agradavelmente perdido em meio aquela estranha exibição. Foi quando Mizy lhe disse:

- O bendito Arok-ta-Beish quer falar com você, por favor, me acompanhe.

Gil deu um meio sorriso, talvez por não estar entendendo nada.

Seguindo-a, Gil viu muitas outras coisas estranhas pelo caminho. Em um local, viu alguns homens fazendo espadas de cristal, o que o fez exclamar:

De cristal?! Mas isso é fácil de quebrar!

Sem parar de caminhar, Mizy lhe explicou:

- Não é cristal comum, é kobak. Cristal que vem de um planeta muito distante. Duro, muito duro.

Mal teve tempo de analisar o comentário dela quando viu algo insólito logo à frente: um círculo de nove mulheres mantinha um homem flutuando em seu centro. Ele parecia ferido. Seus trajes estavam rasgados.

- O que está acontecendo?

- Aquele é Sanduval, chegou há pouco tempo. Está em uma sessão de cura. Pelos comentários, parece que foi ferido pelos guardiões da Torre da Cruz Negra numa emboscada perto da cidade de Góbi. Mas há de se recuperar!

Mizy percebeu que isso assustou o rapaz e tentou lhe acalmar dizendo: - Não se preocupe, isso não é comum.

Isso não acalmou Gil, mas logo viu uma criatura cruzar rapidamente a frente deles, era um ser com forma humana não maior que um palmo, vestido elegantemente com terno amarelo e gravata branca, com um polido sapato preto e chapéu também amarelo. Era negro, levemente acima do peso e segurava uma bonita bengala branca. Isso o impressionou tanto que se esqueceu do homem machucado. Mizy observou sua cara de espanto e apenas disse:

- É nosso querido Sebastião.

Gil ia perguntar sobre esse ser, mas não deu tempo, já estava novamente na pirâmide e o poderoso Arok-ta-Beish o aguardava sorridente.

[12] Ele se refere a um golpe no ar que acerta o adversário a distância. Trata-se de um conhecimento perdido. Os antigos mestres do kyan-pô falam desse golpe, mas não há registro, pois foi considerado perigoso e faz tempo que não é mais ensinado.

[13] Trata-se de elementais, tema a ser discutido com mais detalhes futuramente.


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