Buscar
  • Rildo Moraes

Lendas parte 5 (20...26*)

Atualizado: Fev 3

20.TRISTEZA E SAÚDE


Terça-feira. Havia muito trabalho e quase ninguém notou seu silêncio. Ele trabalhava com afinco, mas sua mente não estava sempre lá. Ligou várias vezes para o telefone dado pela Izy. Demorou para conseguir conversar com o kiraya. Descobriu que seu nome social era Armando. Combinaram um breve encontro no Aeroporto Internacional de Brasília – Presidente Juscelino Kubitschek. Por volta das 18:30! Terá que correr!

Faltam 15 minutos para às 18h, Ana lhe envia uma mensagem: vamos lanchar após o expediente? Gil ficou confuso, mas talvez seja o momento de se acertar com a Ana. Concordou com ela e combinaram que ele ia sair primeiro e esperá-la em uma lanchonete do Guará. Ele foi direto. Lá ele ligou várias vezes para o sr. Armando, para desmarcar, mas ele não atendia - deve estar em vôo com o celular no modo avião! Nem Ana atendia o telefone. Conseguiu falar com o sr. Armando às 18:50 - pediu desculpas e perguntou se poderiam se ver outra vez. Do outro lado da linha ouviu uma risada, em seguida descobriu que o sr, Armando estava indo para China sem previsão de retorno. Sem graça, Gil agradeceu e desejou boa viagem.

Somente às 20:10 Ana atendeu a ligação do Gil. Se desculpou, pois tinha um compromisso com a mãe e havia se esquecido do lanche com ele. Cansado, com fome e com raiva, Gil pediu um lanche e comia, sem conseguir digerir corretamente o que a Ana lhe fez.

Foi direto pra Igreja, precisava falar com o monge Mathias. Para sua infelicidade, ele não estava lá!

Sentou na calçada, em frente a Igreja. Sua mente se recusava a aceitar que Ana não lhe amava mais, negava essa possibilidade. Fazia uma releitura irreal do passado, onde ela era perfeita e sempre companheira. Depois de um tempo, surgiu a raiva e então lhe veio uma vontade de bater nela, de gritar com ela, de dizer que não a amava mais! Quando conseguiu se acalmar surgiu uma vontade de fazer novas promessas a ela: de mudar, de ser melhor, mais carinho, mais paciente, cobrar menos dela… Um lapso de luz em sua mente fez entender que acabou, entendeu que houve bons momentos, mas não foram só bons momentos. Sentiu que não há nada que os ligue que não seja as memórias de algo que foi bom, mas não tão bom assim. Surgiu uma pacífica aceitação em seu coração. Estava triste, mas enxergava com mais claridade a situação.

Em pouco tempo, um rapaz de cabelos castanhos claros e cacheados, de barba e aparentando uns 30 anos, parou perto do GiL e olhava para a Igreja, cujas luzes estavam apagadas. Ao olhar para o Gil lhe disse:


- Há um ditado chinês que diz: "Você não pode impedir que os pássaros da tristeza voem sobre sua cabeça, mas pode, sim, impedir que façam um ninho em seu cabelo". Observe sua respiração, se acalme, tudo está no seu lugar exceto sua mente[41]. A tristeza em demasia pode afetar o Pulmão, respirando profundamente conseguimos nos conectar com a energia do céu, de lá recebemos uma grande verdade: tudo está certo, tudo está cumprindo um papel, tudo tem seu lugar, essa é a justiça divina.


Gil ficou simplesmente impressionado!!!! Como um estranho podia dizer tamanha verdade? Levantou-se e disse:


- Muito sábia essas palavras!

- A busca por sabedoria é uma constante na minha vida! Me chamo Ricardo e você?

- Me chamo Gilmar. Você também é padre nessa igreja?

- Não, não. Vim visitar um amigo, mas creio que cheguei tarde. Digamos que sou estudioso da medicina oriental..

- Que fantástico. Também gosto de estudar coisas diferentes - disse Gil pensando no kyan-pô - e fico até altas horas estudando!

- Que bom que você é esforçado! Mas devemos dormir cedo, antes das 23h, nesse horário nosso sangue está se regenerando no fígado e vesícula biliar, por isso convém estamos deitados, quietos.

- Sério?

- Sim! Devemos seguir a sabedoria da natureza! Por isso convém estudar os ciclos de horário do corpo humano. Um outro horário importante é o de 11 às 13 horas, é horário do coração, devemos evitar exercícios físicos e serenar a mente e coração.

- Caramba!!! É cheio de detalhes! Como vou decorar isso tudo?


Ricardo riu. Olhou no relógio e pediu licença para chamar um táxi! Depois, olhando para o Gil com amorosidade, falou:

- Eu não decoro nada, apenas observo. Se você observar mais, verá, por exemplo, que a tartaruga que sempre se recolhe para dentro de seu casco, nos ensina da importância de recolher nossa atenção na região do umbigo. Os chineses chama essa região de “tan tien”. É nosso centro energético, nossa raiz fetal, nosso porto seguro, é onde ocorre a conexão do céu e da terra, do fogo e da água, ao termos o hábito de levar nossa intenção para lá, fortalecemos essa região e com essa região fortalecida perdemos menos energia para o meio externo.

- Caramba!!!!

- Devemos também, logo após acordar, eliminar as energias turvas produzidas no corpo durante a noite.

- Energias turvas?

- Sim, energias geradas por uma alimentação não muito saudável ou por comer tarde demais. Bem como emoções desarmônicas. Por isso é importante, ao se levantar, se conectar com a energia do sol nascente ou, se ele já estiver mais alto, se conectar com as árvores ou ainda com o próprio céu, levantando as mãos e captando energias na inspiração e depois exalar lançando a energia turva pela boca.


Gil pediu licença para anotar em seu caderno. Achou muito interessante! Enquanto isso, Ricardo observava a rua, na espera do seu táxi. Repentinamente, Gil perguntou: “E quando estamos inquietos ou com dificuldade para dormir, o que podemos fazer?” - perguntou isso por perceber sua própria inquietação e por saber que será difícil dormir essa noite! Ricardo sorriu e respondeu:

- Se a terra não estiver fria ou molhada é bom fazer caminhadas descalço de vez em quando, isso nos fortalece. Outra coisa importante é lembrar que, na região entre os rins, fica nossa bateria, então, sempre que puder esquente essa região com o dorso das mãos.


Gil ia fazer mais perguntas, mas o táxi chegou enquanto ele anotava em seu caderno. Antes de se despedir, Ricardo disse:

- Gostei de você rapaz. Sinto que ainda iremos nos ver!

- Eu também gostei de você, toda segunda estou nessa igreja… apareça mais vezes.

- De fato, nós nos veremos!


O táxi se foi e Gil decidiu ir para casa a pé. Caminhando e pensando. Chegando em casa, pouco antes de abrir sua porta, ela é aberta pelo seu pai, que se despediu do porteiro do prédio. Ele saiu cumprimentando o rapaz, que não entendia o porquê dele estar ali. Porém seu pai explicou: Somos amigos!

Gil pensou: "Que bom! É difícil meu pai ter amigos!" - depois de um bom banho e um lanche rápido, foi ler e dormir (sim, antes das 23h). Mas acordou estranho. Sentiu uma total desinteresse por tudo...pelo trabalho, pelo monge Mathias, pela Ana… Algo muito estranho aconteceu. Na semana, trabalhou com muito esforço. Não falou com a Ana e mal falava com os colegas de trabalho. Final de semana ficou em casa assistindo tv. Na segunda não foi ver o monge Mathias, sentia-se cansado e desmotivado.


[41] Esse estranho fala como o Conselho nº 4:"Quem se controla, controla a situação!"


21. VISITA SURPRESA


Mais uma semana se passou e, pela segunda vez, Gil faltou ao encontro. Sentia-se estranho, com uma preguiça incomum e uma profunda má vontade. Toda aquela empolgação inicial parece ter se desfeito. Mas Mathias, prestava atenção nos acontecimentos.

Na quinta-feira à noite, o luar era bonito quando Mathias saiu em direção à casa do Gil. Chegando no endereço indicado, foi até a portaria. José Carlos, o porteiro, o atendeu: “pois não?”

- Quero falar com Gilmar, diga que é o monge Mathias.


O porteiro ficou branco! Ele já ouviu falar desse monge. Disfarçou e ligou para o apartamento do Gil que, admirado e assustado com a inesperada visita, pede para liberar a subida do monge. Zé Carlos, ainda atônito, aponta em direção à escadaria que o monge deverá subir, pois nesse prédio não há elevadores.

Assim que o monge se dirige às escadas, Zé Carlos pega o telefone trêmulo. Deseja informar seus superiores da visita desse monge. Porém, antes que consiga fazer essa ligação, leva um susto! Matias está na sua frente sorrindo. Depois, com um olhar sério, diz:

- Não faça essa ligação e eu tiro você do inferno que você se meteu.


Zé Carlos fica mudo e não demora muito para que lágrimas encham seus olhos e comecem a cair. Depois, numa voz trêmula fala:

- A minha filha estava muito doente e eu tive que pedir ajuda. Eles me apresentaram um guia ou um mestre ou um orixá ou um espírito de luz.... eu nem sei mais o quê e curaram minha filha, mas agora fiquei totalmente preso e eu tenho medo de não agradá-los corretamente e minha filha morrer. Eu não sei o que faço da vida!


Matias olhava com benevolência, aquele olhar que só é possível dar quem compreende a dor humana. Se aproximou um pouco mais e disse: “confia eu vou te libertar disso tudo, por isso não faça essa ligação”. Zé Carlos visivelmente emocionado e trêmulo fez sim com a cabeça e guardou o telefone. Mathias completou:

- Em breve, você e sua família estarão em um lugar seguro, isso eu prometo. E lembre-se, seja qual for a entidade que você queria adorar, se houver medos e obrigações, essa entidade vem lá de baixo. Se houver amor, essa entidade vem de cima. Está na hora de você fazer escolhas melhores. Me aguarde.


Quando Mathias chegou no andar do apartamento do Gil, este já estava na porta, e começou a se desculpar e a se explicar pelas faltas nos encontros. Disse que não iria faltar mais nos encontros, mas foi interrompido pelo monge que disse que a visita surpresa era apenas uma cortesia entre o mestre e seu discípulo e não uma cobrança. Gil, meio sem graça, pediu desculpas e o convidou para entrar. Mathias quis saber do seu pai e Gil disse que ele viajou hoje pois o irmão do seu pai, seu tio Valdomiro, que morava em Minas Gerais, faleceu. Mathias percebeu a tristeza do seu pupilo e disse, já com a mão no ombro do rapaz:

- A morte é um processo delicado, pois toda perda gera dor. Embora seja tão natural como nascer, ainda é difícil lidar com a morte. Todos nós, um dia, faremos essa grande viagem. Desejo que compreenda isso: a morte não é o posto da vida, a morte é o oposto ao nascimento![42]


Após alguns minutos de silêncio, ele foi direto ao assunto:

- Vou ser honesto com você, estou aqui porque minhas percepções me diziam que havia algo muito estranho acontecendo. E está confirmado, há algo perturbado e perturbador na sua casa, em resumo: tudo indica que você está sob efeito de algum tipo de magia.


Boca aberta e olhos arregalados, essas foram as expressões de Gil. Dessa vez Mathias bateu no queixo do rapaz, debaixo para cima, enquanto dizendo:

- Feche essa sua boca pra não ficar com cara de bobo!

Gil se acertou e perguntou:

- Magia? Como assim?

- Ah, na verdade é apenas o uso de uma entidade (humana ou não, natural ou artificial) usada para te afetar negativamente! [43].


Gil não entendeu muita coisa e ainda assim perguntou:

- E porque essa entidade tá me perturbando? Por que elas fazem isso?

- Ah, rapaz, essas coisas acontecem por vários motivos: você pode entrar, sem querer, em áreas de que pertencem a outras criaturas e elas te perseguirem. Pode ser o caso de você criar discórdia com pessoas que acessam tais forças ou sabem quem as faz (é o caso da cobiça, vingança, luxúria ou inveja). Há casos mais raros onde atraímos indevidamente certas energias (falhas ritualísticas ou frases de atração). Mas, no seu caso, parece que você apresenta algum tipo de impedimento a projetos de alguém.

- Sério? eu?

- Sim, mas vamos resolver isso agora..


Ele colocou um pano branco, que estava em sua bolsa sobre a mesa da cozinha, e também pegou um pendulo e pediu que Gil desenhasse (apenas um rascunho) da planta da casa. E com um pêndulo de cristal ela chegou num cômodo e apontou o dedo: E aqui!

- Meu quarto! O que tem?

Chegando lá, fez novo desenho com os móveis e repetiu o exercício com o pêndulo e descobriu um saquinho plástico colado na parte inferior da cama.

- Eis aqui!

- O que é isso??

- Pelo visto tem carne bovina estragada, raspas de vela negra e... deixe-me ver... sim, tem alguns ideogramas infernais[44] e um papel com alguma anotação, verei isso depois. Interessante, bem lacrado para não deixar cheiro!


Mathias guardou cuidadosamente seus instrumentos de radiestesia[45]. Envolveu o material que acabou de recolher em um saco de pano branco. Depois começou a entoar uma oração antiga com o claro propósito de afastar qualquer entidade negativa do ambiente.[46]

Admirado, Gil não conseguia entender exatamente o que estava acontecendo e deu basta:

- Pelo amor de Deus! O que está acontecendo? O que são essas coisas que você achou? E esse pêndulo?

- Alguém entrou na sua casa e deixou isso no seu quarto para atrair criaturas perturbadas que acabaram aderindo a você, sugando sua energia, sua força. O pêndulo usei para achar isso - apontou para o saquinho - essa técnica se chama radiestesia, veremos isso num outro momento também!

- Como você sabe de tudo isso?

Mathias parou e olhou admirado da pergunta inocente do rapaz e disse:

- Do que sei, ainda não disse quase nada. Seja observador e inteligente e aprenderá, no momento oportuno, muito mais coisas. Agora você vai purificar seu corpo físico e vital queimando enxofre para retirar resíduos ou miasmas.[48]

Após concluído o processo de purificação, orientou que antes de dormir ele faça sempre uma oração e, se puder, faça também a invocação de Salomão (que ele levou anotado em um papel). Conversaram muito sobre seres humanos e não humanos que podem nos afetar, mas explicou que isso pode ser positivo ou negativo! Mas, para evitar o negativo temos que estar em boas vibrações, que se consegue com bons pensamentos, bons sentimentos e boas ações!

Gil assava um pão de queijo enquanto fazia um bom chá! Uma dúvida surgiu na cabeça do rapaz: “Quem poderia ter colocado isso? Mora só eu e meu pai!”. Mathias sabia quem colocou, mas sabia também que o porteiro entrará em uma fase de mudança e por isso, respondeu:

- Quem fez isso não é o mais importante, o mais importante é saber quem mandou fazer isso e porque quer evitar que você avance espiritualmente. Aliás, Gilmar, todo verdadeiro crescimento espiritual é recheado de armadilhas, traições, magias, intrigas, falsos testemunhos etc. Pois só assim se pode verificar quem é realmente verdadeiro em suas busca! Tem pessoas que se dizem muito espiritualizadas, mas diante de uma ofensa, briga e grita como um louco.


Admirado com essa explanação, quis saber mais: “que tipo de malefício se faz as outras pessoas e como evitar?". Mathias, paciente, explicava:

- A magia negra pode afetar a pessoas de várias formas, desde estagnado a vida profissional e financeira de alguém, pode levar a loucura através de pensamentos obsessivos, criar inimizades, gerar fraquezas, desânimos ou mesmo doenças. E pode também matar uma pessoa!

- Mas já ouvi falar que quando se faz mal, ele volta para a pessoa!

Matias deu uma gargalhada e explicou:

- Se isso fosse real, não existiria ninguém fazendo mal para ninguém! O mal só volta se a outra pessoa for blindada, ou seja, um nível de espiritualidade tão profundo, que não há espaço para o mal afetá-la... nesse caso, o mal volta. POr isso, magos negros inteligentes, não fazem magias para afetar um jesus, um Buda, um Francisco de Assis... pois nesse caso, o mal voltará pra eles. Mas na maioria das pessoas, o mal feito é recebido, inconscientemente . Foi o que aconteceu com você! Mas, nós vamos torná-lo blindado!

Já estava tarde, se despediram. Ao sair, Mathias pediu que o porteiro organizasse sua vida, pois ele e sua família iriam mudar de cidade na próxima semana! No caminho, refletia, o que está realmente acontecendo? Por que havia um “espião” dos Toripas vigiando o Gilmar? Há muita coisa mal contada...


[42] Isso nos lembra o Conselho 31: "A morte é uma necessidade" - pois sem ela, não há transformações!

[43] Embora a maioria das pessoas dê o nome de "espirito" de forma genérica a seres do "além", os mestres separam em seres humanos (já tiverem corpo físico), não humanos (geralmente elementais), naturais (ou seja, fruto de processos naturais) e artificiais (desenvolvido através de magia ou manipulaçaõ mental)

[44] Assinaturas infernais são são símbolos usados em magia negra para estimular um determinado tipo de poder tenebroso.

[45] É um tipo de adivinhação empregada para encontrar objetos, seres vivos ou elementos da natureza, como água, minérios, pedras preciosas e outros, utilizando-se galhos em Y ou pêndulos.

[46] Esse tipo de oração é conhecida como Conjurações.


22.MUDANÇAS


No outro dia, sexta-feira, Gil estava mais empolgado. Mandou uma mensagem para Ana, dizendo: "nossa relação parece que acabou, vamos fechar esse ciclo de uma forma harmoniosa?". ela leu mas não respondeu. Para sua mente ficar organizada, ele escreveu um nova mensagem: "Obrigado por tudo, foi ótimo ser seu namorado!" - essa mensagem era apenas para ele (e não ela) ter clareza: a relação acabou. A resposta foi perturbadora: "eu amei você, mas aquele monge do inferno roubou você de mim, amanhã tenho atividade na igreja e vou denunciá-lo ao padre Antonio" - após mandar essa mensagem para o Gil, ela enviou uma mensagem carinhosa ao seu novo amor, o Rafael de Campinas-SP. Gil ia responder, mas se conteve... Em silêncio, ele ainda sofria, pois gostava dela, entretanto, sentia que não estava mais preso àquele sentimento e que poderia se apaixonar por outra pessoa - isso era liberador!

No final de semana soube que o porteiro pediu demissão. Que estranho! soube do seu pai também, ele ficará mais uma semana em Minas.

Chegou segunda-feira a noite, Gil estava empolgado pra rever seu mestre. Chegou na Igreja e o monge estava do lado de fora conversando com algumas pessoas. Ele pensou em aguardar distante, mas foi chamado para roda de conversa. Ao se aproximar se surpreendeu ao encontrar com Ricardo, aquele "médico" que lhe orientou uma vez. Mathias o apresentou a todos:

- Esse é Gilmar, está sob minha orientação.

Todos os saudaram e monge apresentou os demais:

- Esse é Ricardo Coração-de-Lobo-Guará, uma kiraya da linhagem curativa com o qual você já conversou. Essa é Mei-mei - apresentava uma jovem baixinha de traços orientais - ela também é da linhagem curativa.

Seguiu-se um silencio tenso.

- O que está acontecendo?? - perguntou Gil, entreolhando os presentes e sentindo que há algo estranho no ar.

- Rapaz, o bicho ta pegando - falou Ricardo.

Mathias foi mais claro: A comunidade dos Kirayas na floresta foi seriamente atacada. Uma grande comitiva acompanhou Arok-ta-Beish até Shambala[47] e ficaram poucos Kirayas... e sendo assim, aconteceu algo nunca antes visto: um exército de Toripas atacou o santuário. Nós iremos agora ver o qeu aconteceu. Assim, seu treinamento foi suspenso.

- Eu também quero ir - disse Gil com uma voz forte que até a ele assustou.

Os presentes se entreolharam admirados.

- Embora parece que não há mais Toripas por lá, ainda assim pode ser perigoso - advertiu MEI-MEI.

- Acho que ele deve ir - posicionou-se RICARDO - além do mais, isso irá acelerar seu treinamento.

Os Kirayas entreolham-se e, no silêncio, decidiram levá-lo. Após alguns minutos, Mathias olhou para Gil e disse:

- Eu irei amanhã cedo, você poderá ir comigo, caso ainda tenha vontade e coragem, mas lhe adianto uma coisa: você está sendo treinado para ser um Kiraya, não um escoteiro. Portando você poderá ver algo que não se vê num acampamento juvenil... Está me entendendo?

- Obrigado Mestre! – disse Gil, que inclinou a cabeça em sinal de gratidão.

- Mais alguma noticia Mei-mei? Perguntou Mathias.

- Soube que nosso amigo Sandoval está morto! Morreu como um guerreiro, em combate. Mesmo tendo um braço dilacerado, ainda assim conseguiu evitar que entrassem no santuário. Arok-ta-Beish está retornando e convocando todos nós.

- Podemos comprar as passagens ainda hoje...tem um vôo quase meia-noite. Quer que eu compre para vocês? Perguntou Ricardo.

Todos concordaram. Ele e Mei-mei foram direto ao aeroporto para providenciarem as passagens, não sem antes pegarem alguns dados do Gil.

Calado e assustado olhou para Mathias, e este lhe disse:

- Me aguarde, vou avisar o padre Antônio e vou com você até sua casa e de lá, iriemos ao aeroporto.

De taxi, passaram pela casa do Gil, que pegou uma mochila e algumas peças de roupa. E seguiram pra o aeroporto. No caminho, pensava em como avisar a ANA sobre sua falta no trabalho. ela não vai gostar, mas ele não perderia por nada esse retorno a Eirunepé!

De repente, sentiu-se tonto. A cabeça de Gil girava como um redemoinho. O seu tio - que lhe ensinou a nadar e andar de bicicleta - morreu; fará uma viagem para uma cidade que não sabe nem onde fica; poderá perder o emprego e no fundo ainda não está entendendo nada!

Mas, OUSADIA não é uma palavra-chave entre Kirayas?

Respirou fundo, olhou para seu mestre, que o observava com carinho e preocupação!

Assim que desceram do taxi, Gil comentou:

- Eu encontrei com aquelas meninas que você me indicou, elas falaram dos Toripas, eles são maus!

Mathias, que olhava o saguão atrás de seus companheiros, olhos para Gil e explicou:

- Eles não são maus, são tolos!

- Ah? Como assim?

- No mundo há quem busque por clareza, conhecimento, entendimento, luz... e há aqueles que buscam suprir desejos que nunca tem fim. Vivem na ignorância, na insensatez, nas escuridão ou trevas interiores. esse é o caso dos Toripas!

- Mas eles destruíram uma cidade sagrada, eles são maus!

- Eu entendo você. É correto dizer que uma pessoa é boa ou má segundo a forma como ela nos afeta. Porém, o mal não existe por si. Ele é apenas a ausência do bem. Assim como não existe trevas, apenas ausência de luz. Se pode criar um equipamento que gere luz, mas não um que gere trevas. Pois as trevas não existem, existe a falta de luz!

- Mas os Toripas não são inimigos dos Kirayas?

- Dos kirayas mais simples, sim. Mas pra mim, são apenas instrutores.

Gil ficou surpreso, ia perguntar mais, mas Ricardo e Mei-mei chegaram agitados, o vôo vai sair em breve, devem fazer o check-in.


[47] Trata-se de um reino mítico oculto - uns dizem ficar oculto no Himalaia ou na Ásia central, próximo da Sibéria ou um oásis no deserto de Gobi. É mencionado em textos como Kalachakra Tantra, nos textos da cultura Zhang Zhung, no Budismo tibetano. Shambhala significa, em sânscrito, "um lugar de paz, felicidade, tranquilidade", e acredita-se que seus habitantes sejam todos iluminados. Ficou conhecida no ocidente também como Shangri-la


23.RETORNO A EIRUNEPÉ No avião, Gil quis falar ao monge sobre o incidente onde ANA lhe disse que iria denunciar o monge ao padre Antonio, mas percebeu pelo semblante do monge, que isso era coisa pequena comparado com a gravidade do ocorrido na comunidade dos Kirayas. Ficou calado. Gil tentava entender o que realmente está acontecendo, como Ana pode dizer que gosta dele se foi ela que sumiu? Que atitude estranha a dela! Estava tão inquieto que o monge lhe perguntou o que estava sentindo. Embora soubesse que Mathias tinha outras preocupações, achou de comentar com o monge, nestas palavras:

- Uma bobagem! A menina que gosto não gosta de mim e isso está me perturbando.

Mathias sorriu. O sorriso que um pai dá diante de um comentário inocente de seu filho. Há uma guerra em andamento, há mortes e Gil está preocupado com uma paixão. Então, seguindo o conselho 32 que diz “coloque-se no lugar do outro” o monge falou:

- Isso não é uma bobagem!

- ???

- Teu sentimento é nobre, Gilmar. E o dela também!

- Sim, mas ela não quer voltar comigo! Como isso é nobre?

- O sentimento dela vem de um coração puro, mas a mente está impregnada de orgulho e vaidades. Quanto a isso, você não poderá fazer nada. Continue amando-a, pois se quiser esquecê-la irá se lembrar dela a todo instante, então, ame-a profundamente, sem querer nada em troca. O verdadeiro amor é doação. Ame e fique em paz! E há muita coisa a considerar nessa questão…

- O que, por exemplo? indagou Gil já mais sorridente, pois ficou muito feliz ao ver que o monge se ocupou de suas preocupações.

Mathias continuou:

- Lembre-se que o fato de amar alguém, não obriga esse alguém a te amar, mas lembre-se também que há pessoas que nos amam de forma estranha, pois foi assim que aprenderam a amar.

Gil ficou pensativo, digerindo o que lhe foi falado. Depois de uma longa pausa, questionou sobre a eterna luta do bem contra o mal.

- Gilmar, não existe uma luta entre o bem e o mal. Isso são tolices, pois essas forças de complementam, o que não significa que não há atritos entre elas, mas felizmente o mal nunca tomará conta do universo e o bem também não. É o constante atrito entre essas duas forças que faz gerar as luzes que nos levam ao Absoluto. Veja, se não existisse a tentação, como você saberia que alguém é santo? O mal é necessário, por isso a divindade nunca acabou com ele. O mal é importante para que haja escolhas, caso contrário, seriamos apenas seres puros [48]. Lembre-se de que o bem e o mal são necessários, mas nunca nos levarão totalmente até a Deus, pois Ele está acima do bem e do mal. Ao lado dos Kirayas estão os Toripas, que optaram pelo caminho negro e não medem esforços para adquirirem a sua força. Acham que assim chegarão um dia a ser como o Criador. Como eles, existem legiões de demônios, magos negros e tantos outros que fazem o possível para aumentar seus grupos, enfeitiçando e seduzindo seus discípulos. A eles, as obras de seres como Arok-ta-Beish perturbam muito e, talvez por isso, tentaram destruir a cidade fundada por Arok-ta-Beish...E é para recuperá-la que estamos indo para lá.

- Ainda bem que não atacaram Arok-ta-Beish!

O monge sorriu e disse:

- Eles não são loucos. Arok é um Niraya, está acima do bem e do mal, não entra nessas batalhas porque sua função é orientar Kirayas para serem também Nirayas. Ele caminha nos céus e nos infernos com o mesmo passo! É um ser sagrado, como diversos homens e mulheres que, embora sejam de linhagens diferentes, ajudam a ascensão daqueles que buscam a Verdade, que querem ir muito além da evolução!

- Ué, mas a evolução não é um processo contínuo?

- Não, ou melhor, sim, até certo ponto. Veja, há evolução no bebê que se torna uma criança, depois um jovem e por fim um adulto; e há involução nesse adulto que envelhece e morre. Há evolução na semente que germina, cresce e vira uma grande árvore; mas há involução nessa árvore que envelhece e cai. Não espere a evolução levar você até os mais altos céus, pois a sua irmã gêmea (a involução) irá te puxar pelo pé. Não é qualquer um que escapa da carta dez do tarô.

- Carta dez do tarô? O que ela significa?

O monge pegou uma caneta e um papel. Fez uma roda com alguns aros e acima, colocou uma esfinge segurando uma espada e depois disse:

- Veja, aqui está um rascunho da carta dez do tarô. De um lado sobe a divindade Hermanúbis e do outro desce o terrível Tifão Bafometo[49]. Eis aqui a roda dos séculos, a roda do Samsara[50], a roda da evolução e da involução. E é nessa roda que está o segredo da Esfinge. E quando descobrirmos o mistério da esfinge, nós obteremos sua espada e nos libertaremos dessa roda fatal.

Gil ouvia atento. Tentava captar algumas coisas, mas sabia que havia mais conhecimento ali do que ele poderia absorver. Impressionava-se com alguns comentários, e assim o tempo de vôo foi passando.

Foram interrompidos:

- Iniciaremos nossos procedimentos de pouso – disse a comissária.

Minutos depois, estavam todos no saguão do aeroporto de Manaus.

Seguindo por caminhos diferentes, chegaram até aquele teco-teco em que Gil voou até Eirunepé. Só que dessa vez, o piloto era outro.

- Arlek! Você por aqui! – exclamou Ricardo.

- Olá! Ricardo, Mei-mei e meu velho e querido Mathias…e? - assim falou um sujeito estranho num tom carinhoso.

- Apresento-lhe Gilmar... Este é o Arlek - falou Mathias.

Com um meio sorriso, Arlek falou:

- Olá rapaz. Pena que não é um momento muito agradável, mas será um prazer tê-lo conosco

Arlek era muito estranho, mas simpático. Era alto e magro. Seu cabelo castanho claro e longo destacava-se sua pele levemente azulada. Seus olhos eram azuis e aparentava ter uns 30 anos de idade.

Quando o pequeno avião começou a decolar, parecia que não iria sair do chão, mas minutos depois, alcançou alta velocidade. Gil nem ousou conversar, tamanha era sua admiração.

- Como estão as coisas agora? - perguntou Mei-mei para Arlek.

- Estamos reerguendo algumas residências e alguns templos com ajuda de muitas pessoas vindas de outras comunidades. Hoje recebemos a visita de um irlandês chamado Barthold, ele é especialista na magia da reconstrução. Sabe, a batalha deixou um rastro muito triste, há muitos amigos e amigas que desencarnaram! Arok-ta-Beish já está lá e fará hoje à noite o funeral dos guerreiros. Em resumo, ainda há muito trabalho e muita reflexão a fazer.

Arlek tranquilizou Mathias dizendo que não há Toripas na região e, portanto, Gil não irá presenciar batalhas. No meio da conversa, Arlek alertou: - Segurem-se que vou acionar uma nova turbina!

- Nossa, Arlek, este teco-teco está cada vez mais rápido! – admirou Mathias

- Oras.. você sabe que isso não é um teco-teco convencional, aliás, só sua aparência externa é de uma nave terrestre. Afinal, você não ia querer que eu te esperasse lá com uma nave-filhote vipariana[51], não é mesmo?

Gil olhou assustado para Arlek. Isso era uma brincadeira dele? Os quatro Kirayas se entreolharam e riram ao ver a cara de espanto do rapaz.


[48] A pureza, embora desejada, deve vir com sabedoria. As crianças são puras, mas essa pureza não as protege. Quando Jesus disse: "sêde como as crianças" (Mateus 18:3) ele não se referir a sermos iguais crianças, mas com a pureza delas, sem se desfazer da sabedoria que acumulamos. Paulo disse: "Irmãos, não sejais crianças quanto ao modo de julgar: na malícia, sim, sede crianças; mas quanto ao julgamento, sede homens."(1 Coríntios 14:20)

[49] O tarô antigo (ou egípcio) trazia nessa carta um o deus da sabedoria e justiça (junção de Hermes e Anúbis) como símbolo da ascensão, bem como o Tifão ou Tifon (ou Seth) - símbolo da ignorância.

[50] De origem budista, esse ermos se refere a uma série de reencarnações a qual a vida é submetida, espécie de ronda infernal de que o indivíduo só se liberta quando alcança a sua iluminação.

[51] Vipár é um mitológico(?) planeta da constelação das Plêiades, famoso pela sua alta tecnologia.


24.RESULTADO DE UMA BATALHA


Rapidamente chegaram à cidade sagrada dos Kirayas. Ao pousar, algumas pessoas aproximaram-se da aeronave. Mathias acompanhou um grupo de homens e mulheres, foi ver como estavam as coisas e disse a Gil:

- Te procuro depois, dê uma andada por aí e ajude no que puder.

Arlek foi chamado por um grupo de homens que vestiam calças verdes e camisas azuis.

A cidade estava com algumas grandes construções estavam semidestruídas.

Gil caminhou até um grande campo que havia próximo de onde estava. Lá havia uma fila de corpos de homens e mulheres que morreram em combate. Um grupo de mulheres muito jovens espargia um liquido perfumado sobre os corpos. Ao chegar mais próximo, Gil ouviu um velho índio dar a seguinte ordem a um rapaz de turbante: “Ao pôr-do-sol, o bendito Arok-ta-Beish irá iniciar a cerimônia fúnebre. Providencie uma grande fogueira e traga todo nosso estoque de plantas aromáticas, pois queimaremos tudo em honra aos irmãos que partiram. Assim é a vontade do bendito”.

Ambos se retiraram e Gil também. A cidade erguia-se em meio à magia e trabalho duro. Madeiras eram cortadas na floresta e transformava-se em vigas que eram levantadas através de magia e se encaixavam de forma incomum. Outros traziam folhas de palmeiras que recebiam um tratamento estranho e pareciam se converter em metal. Gil chegou a tocar nessas folhas metalizadas - ficavam mais resistentes e mantinham a aparência e a leveza original mudando apenas a cor, pois ficavam prateadas. Outro grupo passava uma estranha resina nas paredes.

Arlek ao vê-lo, gritou: - Ei! Gilmar! Venha até aqui. Vou lhe apresentar Barthold e sua equipe.

Gil aproximou-se de um grupo de senhores que se vestiam iguais e, após os comprimentos, ficou à disposição desses irlandeses para ajudá-los.

- Atuaremos primeiro no templo do grande Arok-ta-Beish, por isso, precisaremos de mais resinas – disse Barthold à Arlek, que saiu em seguida.

Ao chegarem ao templo, observaram algumas paredes quebradas, duas torres destruídas e algumas portas arrombadas.

Gil não conseguia entender porque começar por esse templo sendo que ele não está tão ruim. Mas sua dúvida foi esclarecida por um dos assistentes de Barthold que lhe disse: “Saiba você que essa cidade foi construída segundo a numerologia, a astrologia, o feng-shui[52] e a mandala[53] desse templo. Se a cidade foi semidestruída, ao reforçamos esse prédio, ele irá fortalecer e agilizar a construção do restante da cidade. Toda essa cidade está interligada a esse templo e vice-versa”.

Gil ficou intrigado e gostaria de mais detalhes, mas a equipe começou a analisar o edifício, que não é tão pequeno como ele julgava. O prédio possuía três pavimentos superiores e três pavimentos no subsolo. Doze pequenas torres mantinham cristais em suas pontas, sendo que duas estavam destruídas. Sentinelas em todas as portas davam passagem ao grupo de Barthold. Sua equipe começou a fazer estudos e se iniciou uma estranha discussão técnica com bússolas, mapas celestes, pêndulos e outros estranhos objetos. Gil colaborou auxiliando nas medições com cordas e carregando objetos solicitados pelos estranhos engenheiros. O tempo passava. Ele sentiu fome, mas só duas horas depois é que uma mulher passou entregando cuias com um estranho e consistente liquido. Diante do olhar do rapaz, a mulher informou: “São extratos de plantas fortificantes misturados com frutas. Embora pareça pouca, esta poção alimenta um guerreiro durante dias”[54].

Não que fosse muito agradável, mas Gil tomou tudo e aguardou o resultado, pois seu estômago pedia comida, muita comida. E, em menos de quinze minutos, a fortificante bebida já fazia efeito. Enquanto isso, a equipe de Barthold progredia na reforma. As torres quebradas foram novamente construídas, novos pilares foram erguidos, paredes foram modificadas para darem mais energia ao templo. A parede e o portão de uma misteriosa sala que ficava ao centro desse edifício foram reforçados.

Enquanto isso, Mathias, Arcrus e um grupo de anciões se reuniam em uma pequena sala dentro de uma pirâmide.

Um velho índio, de grande cocar de penas coloridas, sem camisa e com uma bermuda vermelha alertou a todos:

- Não foram os Toripas que atacaram a cidade!

- Como assim? disse Arcrus

- Isso, meus filhos, é serviço de uma Hanasmushen! - disse uma índia, também idosa e de vestido florido.

- Mas não há notícias de Hanasmushen desde muitos séculos atrás! Exclamou Mathias.

O velho índio retrucou: o que a terra engole, pode brotar!

E a velha índia sugeriu: divulguem isso para que não se crie mal estar com os Toripas!

A reunião estava encerrando quando entra o gnomo Sebastião, com uma notícia alarmante: o núcleo de Toripas que fica perto de Brasília foi atacado agora a pouco!

- Mathias e Arcrus, marquem uma reunião com os Toripas. Temos que fazer alguma coisa juntos, pois os Hanasmushen são seres poderosos que odeiam Toripas e Kirayas... aliás, odeia todo mundo! Sentenciou o ancião.

Mathias e Arcrus ainda ficaram na sala após a saída dos anciões. Refletiam sobe o quê e como fazer!


[52] Feng-shui (pronuncia fáng-shuei). As palavras Feng e Shui são de origem chinesa e se referem respectivamente a “vento” e “água”, e é uma ciência e filosofia que acredita que ao modificar o ambiente em que vivemos, modificamos também nosso destino e sentimentos. Usando os cinco elementos chineses, o fogo, a terra, o metal, a água e a madeira, o feng shui identifica as condições do espaço em questão e como elas afetam o Chi ou energia.

[53] A mandála é, originalmente, um círculo que contém em seu interior desenhos de formas geométricas, figuras humanas e cores variadas.

São encontradas em religiões como o budismo e o hinduísmo, bem como na cultura de tribos indígenas e povos primitivos da Europa.

[54] Trata-se de uma bebida indígena pouco conhecida mas já bem relatada. Uma mescla de frutas e raízes eu dão energia para longas caçadas.


25.Funeral


O sol começava a se pôr e o som de um sino tristonho chamava a todos para o funeral. Naquele mesmo campo onde estavam os defuntos, Gil via agora um palanque onde estava Arok-ta-Beish e algumas outras pessoas que nunca vira antes. A alguns metros deles, havia muita madeira espalhada no chão, prontas para uma fogueira. Sobre estas madeiras, havia corpos envolvidos em tiras de cipós secos, como se fossem múmias. Não se poderia identificar assim, quem era quem. Deste conjunto de madeiras, um delicioso perfume expandia-se pelos ares. Curiosamente, Gil viu muita gente triste, mas não desesperada. Pessoas que lamentavam a perda de seus companheiros, mas não havia o tradicional clima de velório, mas um profundo e respeitoso silêncio!

Arok-ta-Beish levantou a mão direita. Um silêncio tomou conta do lugar. Até as aves e animais da floresta, que rodeavam o lugar, aquietaram-se. Com voz solene, ele disse:

- Iniciaremos agora nossa despedida aos irmãos e irmãs que morreram para proteger nossa comunidade, nosso ideal e nossa linhagem. A dor da perda só não é maior do que a certeza de que a morte não foi em vão. Sei que muitos deixaram esposas ou esposos, mas lembrem-se: eles morreram como guerreiros e não como vermes covardes. E por isso, cada uma dessas árvores contarão, nos séculos vindouros, a coragem e a honra desses guerreiros. Coragem e honra que deve ser exemplo para nós. Entretanto, sabemos que a vida é eterna e apenas o corpo é passageiro, assim como nossos vínculos também são passageiros. Esse corpo e esse vínculo irão desfazer-se na fogueira. Procurem compreender isso para poderem compreender a vida, que sempre é eterna.

Depois desse início, Arok-ta-Beish começou a falar o nome dos que morreram, sem ler nenhuma lista. Falava o nome e a multidão respondia: “Você morreu. Não têm casa, nem esposa, nem filhos, não volte mais aqui. Busque a luz, busque a luz, busque a luz”.[55]

Ao concluir todos os nomes, Arok bateu as palmas e um fogo, vindo do nada, começou a arder sobre as madeiras e os corpos. Em menos de uma hora a fogueira já estava apenas em brasas, não se via corpos e apenas uma fragrância perfumava a noite escura da floresta.

Tochas eram acesas em toda parte e Arok fez uma grande oração pelos mortos. Pediu força para que ninguém se sentisse temeroso nessa jornada. E agradeceu a vontade de todos na reconstrução da cidade. Fez menção especial aos Kirayas que vieram de outras comunidades para ajudar, e ao apoio dos Nirayas que estavam presentes, que também fizeram comentários. A cerimônia encerrou-se com a benção do bendito e todos se retiraram em silêncio. Gil não sabia exatamente para onde ir até que Mathias pegou-lhe pelo braço.

Mathias levou-o até sua casa. Lá já estavam outros amigos, inclusive aqueles engenheiros. Mas, antes de entrar, Gil não sentiu-se bem. Percebendo isso, Mathias convidou-o para uma caminhada noturna. Saíram e caminharam pela cidade iluminada por tochas. No caminho, o monge disse:

- Sei que tudo parece muito confuso, meu jovem. Nós mal começamos o treinamento e você se deparou com esse incidente.

Gil parecia não acreditar na cidade que via; no monge que estava ao seu lado; no lugar distante em que se metera; nos mortos que vira queimar. Sentia-se num sonho estranho e perturbador. Queria acordar logo. Mathias percebia a angustia, a dúvida e o medo, mas aguardava Gil se pronunciar.

- Não consigo entender muito bem as coisas, não sei direito quem vocês são, o que fazem realmente, o porquê dessas mortes, essa gente estranha, eu.. eu tô com medo - Gil desabou a chorar.

Mathias abraçou-o como um pai, acariciava seu cabelo e dizia:

- Chore..., chore porque um guerreiro derrama lágrimas além de seu sangue. Chore para que essa angústia libere sua mente para compreender o que está realmente acontecendo. Chore, meu bom rapaz.


[55] A ideia vigente entre kirayas é se desapegar do mundo material e fluir para outras dimensões!


26.A Incrível História de Mathias


Estavam sentados num tronco. Após alguns minutos de choro, Gil começou a soluçar. Naquele momento respirou profundamente várias vezes até parar o soluço e o choro. Ele sentiu o calor, a amizade e a afeição do monge Mathias que olhava com carinho ara seu pupilo. Mais calmo, mas ainda com lágrimas no rosto, perguntou:

- Como o senhor se tornou um Kiraya?

Mathias primeiramente expressou um sorriso, que fez Gil sentir-se em paz. A expressão de Mathias era contagiante, ele estava ciente que - ao contar sua história - poderia ajudar muito Gil, então disse:

- Na busca pela verdade, no decorrer de nossas existências, batemos em diferentes portas, algumas nos levam para o abismo e não percebemos. E foi isso que aconteceu comigo. Há muitos e muitos anos, eu vivia numa pacata cidade chamada São Paulo de Piratininga. Tinha dezesseis anos quando conheci um místico muito misterioso e interessante, ele conhecia tarô, astrologia, falava com espíritos e podia invocar elementos da natureza. Sua aparência era santa e sagrada, sua voz meiga e sábia, vestia-se com uma túnica branca e possuía muitos adoradores. Eu estava no meio deles, julgando-o como um deus vivo. Demorei em descobrir que era uma farsa. No fundo, ele era um escravo das forças negativas. Seus poderes só existiam para ele cumprir os desejos de seus Mestres. Fingia santidade para atrair tolos como eu. No meu fanatismo, não percebi a mitomania[56] daquele homem. Fiquei anos aprendendo magia negra, criando dores nos outros e aprendendo a manipular a mente alheia. Comecei a ganhar dinheiro e respeito. Aos vinte anos, poderia ter a mulher que eu quisesse e, no entanto, não percebia que estava metendo meu pé no inferno. Aperfeiçoava minhas artes mágicas fazendo experiências em pessoas comuns, pessoas que nem imaginavam estar sob minha influência. Fiz uma mulher separar-se para ficar alguns meses comigo. Fiz magia contra um homem rico e eu mesmo fui lá oferecer meus serviços para desfazer a bruxaria. Assim ganhava dinheiro, mulheres e poder.

Os olhos atentos de Gil e sua feição de curiosidade estimularam o monge, que continuou:

- Certo dia, um homem muito rico apareceu em minha casa. Ele queria que eu matasse a namorada de seu filho. Ela era uma pobretona e o pai julgava que essa menina só queria o dinheiro de seu filho. Para mim, isso era um trabalho rápido, simples e lucrativo. Cobrei uma boa quantia e dei-lhe o mortífero pó de Medéia.

Gil interrompeu, e queria saber o que era o pó de Medéia.

- Ah, sim. Trata-se de um pó elaborado a partir de sapos, víboras e aranhas que foram presos em uma garrafa e alimentados com certo tipo de cogumelo. São atormentados todos os dias até morrerem de fome e de raiva. São salpicados com espuma de cristal em pó, cicuta e eufórbio. Após a incineração, separamos as cinzas dos cadáveres, o líquido gosmento e um pó fino e esbranquiçado. Esse é o mortífero pó de Medéia. Uma pitada na bebida faz a vítima se desidratar e morrer em agonia, no máximo em três dias[57].

Mathias fez uma pausa, parecia que queria relembrar mais detalhes.

- Bem, continuando. Uma semana depois, o homem que me comprou o pó de Medéia reclamava que a mulher já havia tomado três doses do veneno e nada aconteceu. Surpreso, na mesma noite sacrifiquei um bode negro e, dominando seu espírito, ordenei-o a romper o cordão de prata dessa menina (o cordão de prata é o elo entre nosso corpo e nossa psique, ele só pode ser rompido pelos Anjos da Morte ou através de alguns elementais, como o do bode negro ou através de gênios malignos com poderes para tal). Mesmo assim, também não tive sucesso. Eu estava indignado e com raiva, pois meu status estava em jogo. Como todo mago negro, a demência e a perversidade me alimentavam. Foi então que utilizei a mais tenebrosa ferramenta: invoquei um gênio maligno e o ordenei que matasse aquela menina. Ele foi até a casa dela e depois retornou até mim dizendo: Não foi possível matá-la, ela possui a proteção do Cristo.

Gil ficou admirado, embora não entendesse exatamente o que ouvia! Mathias continuou:

- Assustado diante de tal revelação, pois nunca um gênio maligno se curvou a outro poder, investiguei por mim mesmo que poder era esse. Mas antes, fiz uma magia para aquele homem rico esquecer que me procurou. Encontrei a menina e fingi amizade. Comecei a frequentar sua casa, seus pais eram pessoas simples e piedosas. Disse-lhe que queria saber mais sobre o Cristo. O que ela me disse me apavorou. Falava sobre o poder que há dentro de cada um de nós. Falou da magia que constrói e fortifica, falava-me do Mestre Jesus e da Mestra Maria Madalena. Quanto mais ela contava sobre o Cristo, mais indignado eu ficava com a bobagem de servir seres tão fracos e deturpados. Soube então que ela era uma Iniciada na magia Cristã (coisa rara, por sinal). E hoje é uma grande Kiraya na comunidade existente no deserto árabe). Meses depois, entrei no mosteiro que ela me indicou. Lá conheci meu grande orientador, o abade Cornélius. Grande alquimista e estudioso de magia cristã. Começou ajudando-me na desvinculação com a magia negra. Ele chegou a invocar demônios e exigir que me deixassem em paz. Algum tempo depois, levou-me a uma gruta secreta embaixo do mosteiro, onde havia um pequeno grupo de Kirayas. Comecei estudar o cristianismo primitivo, li as orientações do Cristo Jesus que não consta nos livros oficiais. Purificava meu coração e perdia meu poder maligno, que era substituído pelos verdadeiros dons cristãos.

- Caracas!!!

- O tempo passou e o abade Cornélius enviou-me para estudar alguns anos num mosteiro na Espanha. Entretanto, isso era o que todos pensavam. Fui, na verdade, aperfeiçoar-me nas orientações sagradas junto a uma comunidade de Kirayas que existe em Mont Serrat [8]. Lá fui treinado e testado, lá conheci Arok-ta-Beish que estava de passagem e que me convidou para ajudá-lo aqui nessa comunidade, assim que terminasse meu treinamento. Eu nem sabia quem ele era, mas disse que seria um prazer ajudá-lo. Achei que ele era um Kiraya como outro qualquer. Quando terminei meu treinamento, voltei ao mosteiro do abade Cornélius e lhe disse do convite de Arok-ta-Beish. Ele me parabenizou e me contou que Arok-ta-Beish era um Niraya que, por piedade a nós, não entrou no mundo abstrato e divino para ficar nos orientando. Cornélius me motivou a vir para essa comunidade. Quando Arok soube que fui estudante de magia negra, me enviou ao Tibete para estudar magia negra com grandes magos negros.

- Como é que é? Você Foi ao Tibete estudar magia negra? Você ainda é um mago negro? Já li um livro de um monge tibetano chamado Lobsang Rampa[58], não parecia magia negra! Não estou entendendo...

- Boa observação a sua. Deixe-me esclarecer alguns pontos. Primeiro: é muito importante que haja na comunidade de Kirayas, alguém que conheça bem a magia negra, pois isso ajuda nos treinamentos e nos estudos de defesa. Segundo: o Tibete possui um grande templo de Luz. E quanto maior a Luz, maior são as sombras. Isto é, sempre existirão templos de magia negra ao lado de templos de magia branca. Esse monge que você me falou - "Terça-Feira Lobsang Rampa" eu o conheci pessoalmente, e é claro que ele vem do templo de Luz. Terceiro: conhecer não significa praticar.

- Então, me diga uma coisa, como a Magia Negra pode afetar uma pessoa?

- Ahhhh..tem várias formas. As mais comuns são: sugar energias através dos sonhos; criando obsessões psíquicas; causando inimizades; provocando enfermidades; estimulando vícios; desequilibrando o desejo sexual; utilizando-se de falsos profetas e, finalmente, com intervenções dos elementais da natureza. Saiba também que os mais abomináveis magos negros não são velhos carcomidos pelo tempo e pelas bobagens que fez. Eles normalmente possuem poderes que mantém sua juventude e força. Fazem as forças da natureza se curvarem aos seus desejos e atuam de acordo com os princípios e planos da Irmandade Esquerda. Não ficam vendendo trabalhos, fazendo amarrações, isso fica para esses magos de terceira e quarta categoria, que são numerosos e inúteis para a Irmandade Negra. Com essa classe, não devemos nos preocupar.

- Caracas! E porque me atacaram, fazendo aquele trabalho lá na minha casa?

- Simples: assim que perceberem que está em treinamento, você se torna um alvo. Considere isso um bom sinal! Afinal, falsos espiritualista nunca são atacados, pois não oferecem perigo!

Gil estava de boca aberta com os novos conhecimentos. Em poucos minutos, Mathias chamou sua atenção para a questão de Magia Negra de uma forma que nunca tinha visto. Conversaram sobre cada forma de ataque e como se defender. Ensinou orações secretas para proteger o corpo enquanto se dorme, falou dos ebós - cápsulas supra-sensíveis cheios de vírus que o mago negro cria e envia pela atmosfera até sua vítima. Disse que a chave para distinguir falsos profetas é a questão do dinheiro, do sexo e da persuasão.

Falaram sobre muitas coisas. Mathias notou que seu pupilo estava mais tranquilo e resolveu terminar o assunto para dormirem. Isto é, se tudo estiver em paz...



[56] Mania de se achar grande, especial, o escolhido! E mentir para isso!

[57] Famoso veneno utilizado desde a Idade Média. Obviamente a receita está muito incompleta!

[58] Misterioso Templo de Luz na Catalunha, Espanha.

[59] Monge tibetano iniciado nos mistérios que, no século XX, escreveu vários livros.


53 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

LENDAS parte 4 (15 a 19)

15. SIGA-ME Algumas pessoas estavam conversando com o monge. Gil aproximou-se e ficou aguardando uma oportunidade de falar-lhe e, enquanto isso, observava curioso o estranho anel. Após alguns minutos,

LENDAS Parte 3 (11 a 14)

11. DECISÃO ​ Não entraram na pirâmide, como esperado, Arok o levou por caminhos longos e escuros na floresta, iluminados por pequenos raios de sol que transpassaram as densas copas das árvores. Chega

LENDAS Parte 1 (1 a 5)

1 LUZES MISTERIOSAS - Gil, acorda...acorda Gil...rápido... Acorda! - Gil abriu levemente seus olhos, Marcão estava com a cabeça dentro da sua barraca e cara de assustado. Gil, um rapaz de 17 anos no s