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  • Rildo Moraes

LENDAS Parte 1 (1 a 5)

1 LUZES MISTERIOSAS - Gil, acorda...acorda Gil...rápido... Acorda! - Gil abriu levemente seus olhos, Marcão estava com a cabeça dentro da sua barraca e cara de assustado. Gil, um rapaz de 17 anos no seu primeiro acampamento na Chapada dos Veadeiros com seu grande amigo Marcão, um negro forte e risonho. - Marcão, você é muito pilantra! Se for piadinha sua, vou sentar a porrada em você. - Levanta Gil, seu preguiçoso. Tá rolando um negócio muito louco lá na mata, vem logo. Gil colocou um chinelo que estava do lado de fora da barraca - preguiça de calçar um tênis - e continuou resmungando: - Cara, tem que ser algo muito importante! Vou levar meu celular, vamos fotografar essa “coisa muito louca” e depois publicar no meu instagram com o título: “Marcão Babaca se assusta com besteira” - Caracas, Gil, preste atenção e me segue. Reclamando, Gil seguiu seu amigo, que é apenas um ano mais velho. na verdade, aliás, seu melhor amigo! E graças a ele - que pegou o carro da mãe, para qual jurou que era um acampamento da Igreja - conseguiu realizar seu sonho: acampar! Ao adentrar na trilha, ficaram em silêncio. O sol ainda estava surgindo, havia orvalho nas folhas e um pássaro preto pousou perto deles e cantava uma estranha melodia. Cauteloso, Marcão andava devagar e observava a mata e Gil, sentia que deveria estar na cama e não alí! De repente, se viram no meio de estranhas luzes que brilhavam no ar sem motivo algum. Pareciam pontos luminosos que brilhavam e sumiam e reapareciam em outro lugar. Nenhum som se ouvia. Impressionado e levemente assustado, Gil ainda conseguiu ter a idéia de fotografar este insólito fenômeno. Se posicionou e deu um click que, para sua surpresa, parece que causou algo junto àqueles brilhos, pois logo após a fotografia, as luzes sumiram! Isso aumentou o suspense. Calados, de olhos arregalados e respiração ofegante, rapidamente voltaram para o acampamento. Ambos se olharam e sem falar nada, começaram a desmontar o acampamento. Era domingo, Aquele era - de fato - o último dia, mas planejavam sair bem mais tarde. Antes de entrarem no carro, Marcão passou os olhos para ver se esqueceram algo. E Gil olhava para a trilha, sentia que - seja lá o que foi aquilo - parecia estar perto deles. Incomodado, pediu para Marcão agilizar. Com certeza, a volta à Brasília será muito mais rápida. Na estrada, Marcão quebrou o silêncio: - Pra mim, aquilo foi coisa do Diabo! - Nada a ver! Aquilo pode ser extraterrestres, fantasmas ou espíritos da mata. - Eu não sei.. hoje é domingo, dia 9 de dezembro de 2012..te lembra alguma coisa? - Vai me dizer que acha que o mundo vai acabar dia 12 e isso foi um sinal? - Você pegou a ideia! Gil riu em silêncio. Após um período sem conversar, ele se lembrou da foto que tirou. Pegou o celular para ver, mas na foto saiu tudo escuro e apenas um ponto luminoso. - Gil, eu fiz algo muito errado! Minha mãe é pastora… eu menti pra ela, eu abri espaço para o diabo entra na nossa vida. É tudo culpa minha cara! Me perdões! - falou com jeito de quem ia chorar! - Nada a ver, Marcão. Para com isso. Aquilo é um mistério que vamos descobrir um dia. Lembra daqueles pássaros cantando, pareciam que estavam falando alguma coisa! - Gil, na boa, na Bíblia há algum caso de animal falante? - Sei lá! - Pois é, não lê a Bíblia e fica falando besteira. E claro que não tem [1]. Então pare com essa ideia. Esse passarinho não quer falar nada! - Ah tá, se não tá na Bíblia, então não existe? - Isso mesmo! - Então dinossauro não existe? - Claro que não! Isso é invenção para as pessoas desacreditarem de Deus! Gil ficou surpreso com a resposta convicta do amigo, pensou em uma série de argumentos, mas se calou. Não ia estragar o dia discutindo opiniões. Desviou o assunto. [2] [1] Marcos não é um bom estudioso bíblico! Há duas passagens bíblicas onde animais falam. A serpente no Livro do Genesis 3,1- 3 e a jumenta de Balaão no livro dos Números 22,28-31 [2] Gil não sabia, mas estava de acordo com o Conselho numero 11 do kyan-pô que diz: ”Só tolos discutem opiniões". 2. O MEIO Os 260 km de estrada entre Brasília e Alto Paraíso foi percorrido rapidamente, em pouco mais de 3h. Marcão deixou Gil onde o pegou, perto do seu prédio. Se despediram, Gil pegou suas “tralhas” e estava muito feliz! Que aventura viveu! Ao entrar no seu prédio, cumprimentou o porteiro que lia o jornal de algum morador. - Fala Zé Carlos! beleza irmão? - Beleza Gilmar! Como foi o acampamento? Aconteceu alguma coisa estranha? - Ah? Como assim?! Meio sem graça o porteiro diz: - Sabe como é, né? Na Chapada sempre acontece coisas estranhas! - Isso é verdade - empolgou-se o rapaz - eu vi luzes muito estranhas! Mas depois conversaremos mais, to doido por um banho. Até mais! Assim que Gil se afastou, o porteiro pegou o telefone e ligou nervoso dizendo: - O Gilmar acabou de chegar, parece que foi contactado sim! Tô fazendo direitinho o que me pediram. Do outro, uma voz tranquila responde: - Muito bem, José Carlos. Sua constante ajuda será levada em conta, não se preocupe. Gil subiu as escadas tenso. Como será que seu pai irá recebê-lo? Essa incerteza o matava. Parou em frente a seu apartamento e colocou o ouvido na porta para tentar saber se seu pai estava em casa. Barulho de tevê. Sinal que seu pai deve estar calmo. Abriu a porta e deu de cara com ele! - O pai doente e o rapaz vai acampar por aí. É pra isso que serve filho! Menino inútil. A gente cria com tanto amor e recebe isso: total descaso. Quando eu morrer você vai dar valor, seu merd*. Eu sempre fui um homem bom, ajudava todo mundo! Sua mãe - que Deus a tenha! - nunca teve nada para reclamar a meu respeito! E agora que estou velho, não tem uma alma que me ajude! Alfredo era homem de cabelo grisalho e rosto carrancudo, sua aparência muito envelhecida escondia seus 54 anos. Aposentado do serviço público por problemas de saúde, causada pelo excesso de bebidas. Falava muitos palavrõs - e isso refletia em seu filho. Andava sempre com a barba a fazer. Na rua, não seria difícil confundi-lo com um mendigo. Não era um homem mal, mas nos dias que começa a beber cedo, não tem conversa que não termine numa discussão. Exceto que Gil não responda - e isso ainda era difícil, pois não suportava as mentiras e injúrias que seu pai falava - mas hoje foi exceção, Gil entrou calado enquanto seu pai continuava o seu habitual sermão. Felizmente, se Gil não der corda, seu pai fica falando sozinho por algum tempo e depois se aquieta. Gil jogou sua mochila em cima da cama e tomou um bom banho. Seu pai saiu. Que alivio! Comeu duas maças - uma já meio enrugada - e duas bananas. Tomou leite com granola. Esse foi seu almoço. passou a tarde no computador, colocando as fotos no instagram com os devidos comentários, afinal, o lugar era fantástico e muita gente ficará com inveja. Contou as aventuras com outros dois grandes amigos: o Tucão e o Cadinho (ou Ricardinho!). Assistiu algumas series (acompanha 3 simultaneamente) e a noite fez macarrão instantâneo com atum. Dormiu cedo e seu pai na rua! Segunda-feira, começou sua rotina: arrumar a casa que estava mais bagunçada do que nunca. Felizmente seu pai logo saiu, provavelmente para jogar dominó com seus amigos. Gil não era um exemplo de organização e limpeza, mas tinha o bom senso de não fazer da sua casa um depósito de lixo. Nos dias que passou fora, notoriamente seu pai trouxe seus amigos bêbados para “emporcalhar” a casa. Enquanto arrumava a cozinha pensava em sair de casa. Mas como? Com que dinheiro? E afinal, largaria seu pai a própria sorte? Teria coragem de deixar seu pai morrer sozinho? Eram tantas as coisas que passavam pela sua cabeça. Passou a tarde respondendo comentários das fotos postadas no Instagram e sim, havia comentários invejosos. Mas ficou chateado ao ver que recebeu menos “likes” do que imaginava. Ele sabia que ter muitos “Likes” dava status... Na sua inocência, achava que isso era a coisa mais importante a se conseguir! Fez o jantar e voltou à internet. Por volta das 20h seu pai chegou. Se dizia cansado - e não perturbou muito, apenas reclamou do jantar que Gil fez, ele não gostou do frango que achou muito mal frito! Gil nem se incomodou, estava acostumado, afinal, culinária não era uma das suas maiores habilidades e, quem lhe ensinou o pouco que sabia, foi exatamente seu pai. Ah, se tivesse aprendido com sua mãe - ele pensava - pena que quando ela queria lhe ensinar, ele não queria aprender - achava que nunca iria precisar! Chega mensagem em seu celular, era Ana - sua mais bela amiga. Gil era secretamente apaixonado por ela, mas, em seu pensamento, o que uma “gata” como ela iria querer com ele? - Oi gil vc ta bem? Está em casa? Ja chegou da Chapada? - Oiii lindona...to bem e vc? - De boa, posso passar na sua casa daqui a meia hora? Preciso de um favorzinho seu. - Blz já te espero lá embaixo. Uau! O coração do Gil acelerou. Era clara, alta e possuía um cabelo preto, longo e cacheado, que Gil achava muito bonito. Um pouco mais velha do que ele, trabalhava e tinha carro!!! Mas, já que ela quer um favor, isso poderá ser ótimo para uma maior aproximação! Mas, como sua mente era negativa, sempre chegava à seguinte conclusão: “eu não mereço uma mulher assim!”. Um pouco antes do previsto ela estacionou na frente do seu prédio. Gil já estava lá, ansioso, esperando por ela. Foi até o carro chinês da sua amiga, era um “QQ” branco. Ela não desceu do carro (já sabia da história do pai dele). Gil entrou, deu um beijinho no rosto e um leve abraço. Não do jeito que queria, pois abraçar dentro de carro nunca é um abraço completo. Falaram do acampamento, do trabalho dela e por fim ela perguntou: - Gil, você que é tipo um hacker, pode testar esse software que comprei? É um “piratex” - comprei na Feira dos Importados e não consigo instalar… Ele é ótimo para trabalhar imagens, muito fera! - Ah! Isso é mole! Pode deixar…”é nozes baby!” - falou de forma tão engraçada que os dois riram. A noite estava diferente, não apenas pelo repentino vento frio que entrava pelas janelas semi-abertas do carro, mas porque parecia que havia algo no ar. E não era apenas o delicioso perfume que ela usava. Aliás, nesse momento Gil pensou: eu devia ter passado algum perfume também! Era o sorriso, o olhar.. tudo dela atraia e intimidava o rapaz. Após alguns minutos de suspense silencioso, ela disse: - Bom, muito obrigado. Agora tenho que ir. - Ah, sim, claro. Amanhã, se for possível, posso deixar na sua casa. A gente pode até assistir um filme, se tiver tempo[3]. - Não se preocupe, eu só irei usar no sábado, Passarei aqui na sexta, nesse horário e pego. Se despediram e Gil ficou na frente do seu prédio olhando o carro ir embora. Tava indignado e dizia a si mesmo: Como sou burro! Não devia ter falado nada de filme. Agora ela sabe que estou afim… Poxa, eu devia só falar que ia ajudar - só isso! Não devia falar das intenções.., Ahhh! Como sou idiota!!! [3] Essa afobação do Gil era uma mistura de desejo e medo… não sabia a hora de convidar e sempre levava um não! 3. A LUZ SE REVELA Assim que o carro sumiu na curva, ele entrou em seu apartamento, passou na cozinha lavou mais dois pratos sujos que faltaram, pegou uma maçã já meio passada e foi para seu quarto. Trancou a porta como de costume, deitou na cama pensando nela. Ahhh..que linda! Mas ele, na sua ignorância, dizia: ela é muito pra mim. Ela tem emprego, tem até carro e ele? Nada! Vive de migalhas de um pai aposentado. Após o balde de água fria que deu em si mesmo, decidiu colocar para funcionar aquele programa. Estava sem sono mesmo! O estranho é que o número de série que havia no produto dava erro na instalação. Começou procurar número de série “hackeados” mas não funcionou nenhum. Já tava indignado...o tempo passava e ele não achava solução – o que ela ia pensar dele? Depois de um tempo ele se deu conta de uma coisa.. o último dígito do número de série que que havia na embalagem do CD não era 3..era um 8 quase apagado! Gil colocou o número certo e pronto! Software sendo instalado! - Uhuuuu eu sou bom mesmo!! Uhuuu ANA..essa é para você! Após a instalação ele brincou com muitas imagens, havia vários efeitos muito interessantes. Então ele se lembrou da estranha foto da luz, que estava toda escura com um único ponto luminoso. Apenas por curiosidade, colocou ela e começou a mudar filtros de cor, a dar zoom e testar as muitas opções que havia neste software. De repente, algo aconteceu. Gil abriu a boca e arregalou os olhos. Sentiu um frio percorrer todo seu corpo. Agora a imagem apresentava o rosto de um velho que deveria estar quase na frente dele quando tirou a foto e outras duas batendo espadas - e era esse choque de espadas que gerava a luz que foi captada pelo seu celular! Assombrado, Gil fez muitas perguntas a si mesmo. Afinal, o que era aquilo? Por que não apareceram na foto? Aliás, por que não eram visíveis? Eram fantasmas? Bruxos? Assombrações? Demônios? Anjos? Eram três horas da madrugada e o sono não chegava. Gil observava minúcias da imagem. Mandou mensagens para o Marcão: - Cara descobri o mistério das luzes! mas nada de responderem! Gil estava em pé, andando de um lado para outro, coçando a pouca barba que nascia. Que loucura era aquilo? Percebeu que aquele velho, em primeiro plano, parecia fazer pose para ser fotografado. Ou seja, ela esperava por isso! Meu deus do céu!!! Embora a aflição, o medo e a curiosidade fossem grandes, teve uma hora em que o sono venceu. Cansado, adormeceu com as luz do quarto acesa. Despertou com seu pai batendo na porta: - Quer me levar à falência, moleque? Seu irresponsável! São quase meio-dia! Depois que sua mãe morreu você virou um merd*! Apague essa porr* dessas luzes! Assim fala Alfredo, um homem já perdindo dnetro de s´pimesmo! Gil levantou assustado e gritou: Já vou. Foi ao banheiro, lavou o rosto e se olhava num espelho cujo canto inferior esquerdo estava quebrado - coisa do seu pai bêbado. Se olhava no espelho e se perguntava: aquilo da foto foi um sonho ou foi real? Foi correndo para o quarto, o computador já estava ligado e então reviu a foto. Meu deus...é real! Ficou novamente andando de um lado para outro. Olhou as mensagens que enviou para os amigos e eles nem leram! Ficou um tempão pensando pra quem deveria ligar. Conclusão: pra ninguém! Depois mandou uma mensagem para Ana só para dizer que já esta tudo ok com o programa. Ela agradeceu e informou que não poderá ir na sexta, mas passará sábado após o almoço e poderiam sim tomar um sorvete juntos. Gil estava tão tenso que desligou o telefone sem se despedir e não se deu conta disso. Mas a Ana estranhou e não gostou. Gil estava inquieto, andava de um lado para outro, colocava as mãos na cabeça...olhava novamente para a foto...e não queria acreditar no que via. Uma confusão de sentimentos e pensamento... até que seu pai gritou da cozinha: - Para de enrolar e vem aprender a fazer um frango! Para evitar confusões, lá foi o rapaz, ciente que seu pai vai lhe perturbar muito! E, para sua surpresa, seu pai o recebeu rindo e dizendo: - Hoje eu vou te ensinar a fazer um frango com açúcar! Receita da sua mãe. Preste atenção. Não fica doce não! Atônito, ele observava o pai. Uma cena rara. Embora não tivesse cabeça para aprender receita nova, ele gsotou de estar ali conversando com seu pai. Por algum motivo, isso o acalmou e o fez esquecer a foto. Seu pai tem épocas que bebe muito e tem épocas que bebe menos. É uma oscilação difícil de saber. Mas, para sorte do Gil, parece que ele entrou na fase de beber menos! 4. NOVA REVELAÇÃO A semana fluiu de forma inquieta para o Gil Sábado, 13:35 Gil recebe uma mensagem da ANA: chego em 30 minutos. E como Ana não é boa em cálculos temporais, chegou quase 1h depois do previsto! Gil já estava lá, sentado no meio fio esperando. Ela estava com um vestidinho branco com flores amarelas, seus cabelos longos e pretos estavam muito perfumados! Ele a recebeu com um lindo sorriso e antes de entregar o CD ela perguntou: - Bora comer? tô a horas no salão e não comi nada até agora! Gil fez um meio sorriso.. como tá sempre sem grana, preferiu comer em casa e então disse: - Yes baby! Eu já almocei, mas acompanho você. Bora comer - Tô querendo ir num restaurante que tem no Parque da Cidade, pode ser? Faz tempo que quero comer uma Carne de sol bem gostosa. Gil concordava, mas sua atenção estava no cabelo, nas unhas e cabelos. O cabelo preto sobre o vestido branco e amarelo dava um gostoso contraste de se ver. Seu batom rosado realçava seus lábios. Ela perguntou das novidades e ele mordeu a língua para não falar da foto - essas esquisitices não iam ajudar - assim pensava ele. Por isso, contou vários detalhes da semana, mas nada de fotos com alienígenas ou bruxos! No restaurante, enquanto aguardavam serem servidos, ele perguntou sobre o trabalho dela e ela se empolgou, contava satisfeita dos problemas e soluções pelas quais passava em seu trabalho. Quando o prato chegou, era um suculento “carne de sol completo” com direito a carne bem passada, arroz, mandioca frita, feijão de corda e queijo coalho, além de um vinagrete. Ela insistiu para que o rapaz a ajudasse - era muita comida, ela dizia - ele se negou mas depois pegou alguns pedaços com o garfo que pediu ao garçom. Sim, ele também estava com fome! Em seguida, decidiram fazer uma caminha pelo parque. O sol estava gostoso e a brisa suave. Falaram sobre filmes e também a conclusão do ensino médio do Gil - ela ficou muito feliz por ele! Caminhavam em um local comumente pouco movimentado, mas que estranhamente, tinha muita gente. Gil fez uma pausa na conversa e observou um velho que estava mais à frente recolhendo latinhas de refrigerante das lixeiras. O cabelo, os traços...parecia muito com o velho que apareceu na estranha foto do acampamento! Gil ficou novamente paralisado. Olhos arregalados, boca semiaberta, a pulsação se elevando. Até que o velho olhou para ele e sorriu - sim era ele!!! - É ele! - gritou Gil enquanto corria em sua direção. O velho olhou para o Gil e jogou no chão um saquinho de couro que tirou do bolso, em seguida se misturou na multidão. Ana sem entender, correu atrás do Gil, que também desapareceu. Algum tempo depois, ela o encontrou com o saquinho na mão, olhando em todas as direções. - O que está acontecendo? Quem era aquele velho? - perguntou ela com olhar assustado. Não gosto disso!! parece louco...coisa esquisita!!! Gil demorou um pouco para responder. Uma mão segurava o saquinho e a outra, coçava a cabeça, como que não acreditando que perdeu ele. Ana se aproximou, pegou o rapaz pelo braço, olhou no seu rosto e disse: - Que raios está acontecendo aqui? Quem era aquele velho? Gil olhou para ela e percebeu que deveria contar a verdade ou teria que inventar rapidamente uma desculpa muito boa. Então disse: - Aquele velho parecia ser o pai de um grande amigo que perdera contato há muitos anos. - Que papo estranho é esse? Isso é sério? - Aiii…. meu estômago tá doendo. Não tô legal. Pode me levar para casa? Dizia de forma lamuriosa Ela não gostou nem um pouco, teve a sensação que o Gil é muito moleque e imaturo – afinal, são quatro anos mais novo do que ela. Foram para o carro e ela dirigiu calada enquanto ele fingia dores no estômago. Já em seu quarto ele fazia o seguinte cálculo: zero no quesito “simpatia com ANA”, mas dez no quesito “estou descobrindo alguma coisa”. Ligou o computador e analisou novamente a imagem e confirmou, o velho que viu no parque era o mesmo da foto. Só então se lembrou do saquinho de couro que o velho jogou propositalmente no chão para ele pegar. Abriu bem devagar. Seu coração batia cada vez mais rápido. havia um papel dobrado. Desdobrou com cuidado... - Caramba!!! - exclamou Gil. No bilhete havia o seguinte texto escrito a mão: Para Dragões Adormecidos Mateus 10:34 - Mateus 11:12 Eiru Nepé Segundo equinócio de 2013 Assustado e estranhando muito, ele procurou a Bíblia na internet, não demorou a encontrar e então leu em voz alta a primeira citação (Mateus 10:34): “E disse Jesus: Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”, achou muito esquisito e leu a segunda citação (Mateus 11:12): “E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os valentes o tomam de assalto”. Gil ficou chocado com ambas as citações. Notoriamente era um recado para os Dragões Adormecidos.. mas quem ou o que seriam esses dragões? E essas palavras Eiru Nepé, o que significavam? Não via nada disso na internet, mas descobriu o que era equinócio 1 e também que o segundo equinócio de 2013 ocorrerá ainda em 22 de setembro. Mal acabou de achar isso na internet, tocou seu celular. Era Ana, extremamente indignada com o ocorrido. Gil justificou seu mal estar, mas ela estava bem brava. Brigou com ele e desligou o celular. Que confusão, pensava Gil Que rapaz infantil, pensava Ana. Mais uma noite que prometia ir longe. Só que dessa vez, Gil apagou as luzes antes de deitar! Domingo Gil ligou para ela pedindo desculpas... fez bem. Ela sentia falta dele. Os laços de carinho foram se estreitando. Começaram a namorar e logo os encantos dela o acalmaram, bem como as bebedeiras do seu pai. O tempo seguiu seu rumo e, hora e outra, Gil lembrava-se de Eiru Nepé. Mas que raios era aquilo? Lembrava-se também, com saudades, de seu amigo Marcos que se mudou para Campinas, interior de São Paulo, e raramente se falam - aliás ele nem quis saber de mais nada referente à foto! Talvez porque ele se firmou numa Igreja e achou que aquilo não era de Deus.. O tempo passou… chegou o final de ano. Como de praxe, Gil e seu pai foram passar o Natal e Reveillon em Minas, onde tem parentes. Foi um drama para Gil, pois queria ficar com ANA, mas sabia que não era estratégico criar um mal estar com seu pai que, milagrosamente, está na fase onde bebia menos! 5. FICHAS Distante de Brasília, ocorria o seguinte diálogo: - Olá! Você é a senhorita Mizy? - Sim em que posso ajudar? é novo aqui? - Sou o Zagreb, vim da Croácia, sou coletor e pediram para deixar essas fichas com você. - Deixe-me ver...Sim...essas são as fichas das pessoas que foram coletadas. Prazer Zagreb, sou Mizy...e diferente de você, sou caçadora! - Que legal! Uma caçadora no serviço burocrático - sorriu gentilmente o jovem rapaz de cabelos ruivos aparentando 25 anos. Ela é negra, de olhos amendoados, e sorriso farto. Deveria ter uns 30 anos. Ela lhe disse que nos momentos de folga, ajuda na parte burocrática. Ele continuou: - Vim conhecer o famoso grupo de kirayas da floresta amazônica. - Seja bem-vindo. E me diga, como você faz a coleta? - Eu desenvolvi uma técnica moderna! O alvo tira uma foto dos coletores (que ficam invisíveis) e a única coisa que aparece são luzes. isso causa algo intrigante e depois aguardamos eles descobrirem e então fazemos o contato pessoalmente. Ela sorriu e perguntou: - parece meio confuso. Funciona? - Bom... na verdade o meu primeiro teste foi com um rapaz de Brasília e confesso que funcionou… já fez o contato pessoal e a equipe já está preparando ele para trazê-lo para cá! - Que bacana! Funcionou! Parabéns!! - Obrigado! Me diga, no meu grupo só tem coletores e caçadores. Aqui tem mais funções, certo? - Sim, sim! Além de coletores e caçadores, temos também os sábios indicadores, os guerreiros sagrados[4] e outros que não me lembro o nome - terminou com um gostoso sorriso. - Entendi. Aos poucos vou me familiarizando. - Gostei de te conhecer e conhecer seu trabalho. Me diga, esse rapaz que você coletou, é um indicado por linhagem ou por trabalho?[5] - O rapaz que coletamos - se não me engano se chama Gilmar - e foi indicado por linhagem. - Legal Zagreb! Que bom ter você aqui trabalhando conosco! Os jovens conversavam quando o respeitado monge Matias Cristovão passou por eles e ouviu a seguinte frase de Zagreb: - Olha Mizy, tô aqui para ajudar... com dizem: fazer o bem sem olhar a quem! O monge parou olhou para os jovens e se aquietaram e o cumprimentaram. Então o monge diz: - Então você é o Zagreb, quero falar com você, se a senhorita Mizy me permitir - disse isso sorrindo apra ela. - Sim, sim. Claro! Respondeu a menina que agilizava organização das fichas. Saíram caminhando lentamente. O monge estava especialmente desejoso de saber das sensações que Zagreb teve com o rapaz de Brasília, o Gil. Porém, sentiu um impulso em orientar esse jovem kiraya e lhe disse: - Sabe aquela frase que você disse: “Fazei o bem sem olhar a quem” ? - Sim, eu também venho de uma linhagem cristã, como o senhor! eu adoro a Bíblia e acho essa frase muito importante! - Pois bem, meu jovem, essa frase não está na Bíblia! O rapaz fez uma cara de espanto! E o monge continuou: - Essa frase é uma distorção do que está escrito em Gálatas 6.10: ”Então enquanto temos tempo façamos bem a todos, mas principalmente os domésticos da fé”. É fato que Jesus nos ensinou a bondade, mas fazer o bem de “olhos fechados” pode ser perigoso, podemos estar ajudando pessoas pilantras ou perversas. Devemos ajudar as pessoas comprovadamente necessitadas. devemos ter sabedoria e liberdade para ajudar! Como diz em Deuteronômio 15:11 “Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra”. - Nossa! Eu sou um kiraya e não sabia disso! - Meu jovem, estamos sempre aprendendo - isto é, se permitirmos! Além disso, não há uma conduta típica de um kiraya. O que nós faz kirayas é essa fome pela Verdade. Agora Zagreb sentiu o poder dos kirayas da Amazônia. Feliz e animado, se colocou à disposição do monge. Foram horas de muito aprendizado ao lado do mui venerável Monge Matias, um orientador respeitadíssimo. [4] Os Sábios Indicadores sentem e indicam pessoas no mundo todo com potencial para serem kirayas (buscadores do Sagrado). Os coletores são pessoas que fazem o contato com tais pessoas, geralmente de forma pouco convencional, pois o objetivo é medir o poder interior - que indicará que ela está pronta ou não pra ser um kiraya. Os caçadores são pessoas dedicadas a bloquear as manifestações não autorizadas, que podem ser desde simples fantasmas até entidades mais complexas que podem interferir no processo de coleta. Os guerreiros são chamados quando os coletores se deparam com seres extremamente fortes, geralmente magos negros ou demônios. E há também os orientadores, aqueles que instruem os novos kirayas! [5] As pessoas são indicadas para o caminho do Kiraya por fazerem um trabalho sobre si mesmo de forma muito profundo ou porque, embora não estejam fazendo um trabalho profundo, são pessoas que já vem de um trabalho de muitas vidas anteriores.


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