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  • Rildo Moraes

Lendas de um Kiraya - Cap. II - De volta à Brasília

Os 260 km de estrada entre Brasília e Alto Paraíso foi percorrido rapidamente, em pouco mais de 3h. Marcão deixou Gil onde o pegou, perto do seu prédio na Asa Sul. Se despediram, Gil pegou suas “tralhas” e estava muito feliz! Que aventura viveu! Ao entrar no seu prédio, cumprimentou o porteiro que lia o jornal de algum morador.

- Fala Zé Carlos! beleza irmão?

- Beleza Gilmar! Como foi o acampamento? Aconteceu alguma coisa estranha?

- Ah? Como assim?!

Meio sem graça o porteiro diz:

- Sabe como é, né? Na Chapada sempre acontece coisas estranhas!

- Isso é verdade - empolgou-se o rapaz - eu vi luzes muito estranhas! Mas depois conversaremos mais, tô doido por um banho, até mais!


Assim que Gil se afastou, o porteiro pegou o telefone e ligou nervoso dizendo:

- O Gilmar acabou de chegar, parece que foi contactado sim! Tô fazendo direitinho o que me pediram. Ta bom?

Do outro, uma voz tranquila responde: - Muito bem, José Carlos. Tenha calma. Sua constante ajuda será levada em conta, não se preocupe.


Gil subiu as escadas tenso. Como será que seu pai irá recebê-lo? Essa incerteza o matava. Parou em frente a seu apartamento e colocou o ouvido na porta para tentar saber se seu pai estava em casa. Barulho de tevê. Sinal que seu pai deve estar calmo. Abriu a porta e deu de cara com ele! E já começou o sermão:

- O pai doente e o rapaz vai acampar por aí. É pra isso que serve filho! Menino inútil. A gente cria com tanto amor e recebe isso: total descaso. Quando eu morrer você vai dar valor, seu merd*. Eu sempre fui um homem bom, ajudava todo mundo! Sua mãe - que Deus a tenha! - nunca teve nada para reclamar a meu respeito! E agora que estou velho, não tem uma alma que me ajude!

Alfredo era homem de cabelo grisalho e rosto carrancudo, sua aparência muito envelhecida escondia seus 54 anos. Aposentado do serviço público por problemas de saúde, andava sempre com a barba a fazer. Na rua, não seria difícil confundi-lo com um mendigo. Não era um homem mal, mas nos dias que começa a beber cedo, não tem conversa que não termine numa discussão. Exceto que Gil não responda - e isso ainda era difícil, pois não suportava as mentiras e injúrias que seu pai falava - mas hoje foi exceção, Gil entrou calado enquanto seu pai continuava o seu habitual sermão.

Felizmente, se Gil não der corda, seu pai fica falando sozinho por algum tempo e depois se aquieta. Gil jogou sua mochila em cima da cama e tomou um bom banho. Seu pai sau. Que alivio! Comeu duas maças - uma já meio enrugada - e duas bananas. Tomou leite com granola. Esse foi seu almoço. passou a tarde no computador, pois-se a “postar” as fotos no instagram com os devidos comentários, afinal, o lugar era fantástico e muita gente ficará com inveja. Contou as aventuras com outros dois grandes amigos: o Tucão e o Cadinho (ou Ricardinho!). Assitiu algumas series (acompanha 3 simultaneamente) e a noite fez macarrão instantâneo com atum. Dormiu cedo e seu pai na rua!


Segunda-feira, começou sua rotina: arrumar a casa que estava mais bagunçada do que nunca. Felizmente seu pai logo saiu, provavelmente para jogar dominó com seus amigos. Gil não era um exemplo de organização e limpeza, mas tinha o bom senso de não fazer da sua casa um depósito de lixo. Nos dias que passou fora, notoriamente seu pai trouxe seus amigos bêbados para “emporcalhar” a casa. Enquanto arrumava a cozinha pensava em sair de casa. Mas como? Com que dinheiro? E afinal, largaria seu pai a própria sorte? Teria coragem de deixar seu pai morrer sozinho? Eram tantas as coisas que passavam pela sua cabeça.

Passou a tarde respondendo comentários das fotos postadas no Instagram e sim, havia comentários invejosos. Mas ficou chateado ao ver que recebeu menos “likes” do que imaginava. Ele sabia que ter muitos “Likes” dava status...era a coisa mais importante a se coseguir! Fez o jantar e voltou à internet.

Por volta das 20h seu pai chegou. Se dizia cansado - e não perturbou muito, apenas reclamou do jantar que Gil fez, ele não gostou do frango que achou muito mal frito! Gil nem se incomodou, estava acostumado, afinal, culinária não era uma das suas maiores habilidades e, quem lhe ensinou o pouco que sabia, foi exatamente seu pai. Ah, se tivesse aprendido com sua mãe - ele pensava - pena que quando ela queria lhe ensinar, ele não queria aprender - achava que nunca iria precisar! Chega mensagem em seu celular, era Ana - sua mais bela amiga. Gil era secretamente apaixonado por ela, mas, em seu pensamento, o que uma “gata” como ela iria querer com ele?


- Oi gil vc está bem? ja chegou da Chapada?

- Oiii lindona. Tudo bem e vc?

- De boa, posso passar na sua casa daqui a meia hora? Preciso de um favorzinho seu

- Blz já te espero lá embaixo.


Uau..o coração do Gil acelerou. Era clara, alta e possuía um cabelo claro, longo e cacheado, que Gil achava muito bonito. Um pouco mais velha do que ele..trabalhava e tinha carro!!! Mas, já que ela quer um favor, isso poderá ser ótimo para uma maior aproximação! Mas, como sua mente era negativa, sempre chegava à seguinte conclusão: “eu não mereço uma mulher assim!”.

Um pouco antes do previsto ela estacionou na frente do seu prédio. Gil já estava lá, ansioso, esperando por ela. Foi até o carro chinês da sua amiga, era um “QQ” branco. Ela não desceu do carro (já sabia da história do pai dele). Gil entrou, deu um beijinho no rosto e um leve abraço. Não do jeito que queria, pois abraçar dentro de carro nunca é um abraço completo.

Falaram do acampamento, do trabalho dela e por fim ela perguntou:

- Gil, você que é tipo um hacker, pode testar esse software que comprei? É um “piratex” - comprei na Feira dos Importados e não consigo instalar… Ele é ótimo para trabalhar imagens, muito fera!

- Ah... Isso é mole! Pode deixar…”é nozes baby!” - falou de forma tão engraçada que os dois riram.

A noite estava diferente, não apenas pelo repentino vento frio que entrava pelas janelas semiabertas do carro, mas porque parecia que havia algo no ar. E não era apenas o delicioso perfume que ela usava. Aliás, nesse momento Gil pensou: eu devia ter passado algum perfume também! Era o sorriso, o olhar.. tudo dela atraia e intimidava o rapaz. Após alguns minutos de suspense silencioso, ela disse:

- Bom, muito obrigado. Agora tenho que ir.

- Ah, sim, claro. Amanhã, se for possível, posso deixar na sua casa. A gente pode até assistir um filme, se tiver tempo [3].

- Não se preocupe, eu só irei usar no sábado, Passarei aqui na sexta, nesse horário e pego.

Se despediram e Gil ficou na frente do seu prédio olhando o carro ir embora. Estava indignado e dizia a si mesmo: Como sou burro! Não devia ter falado nada de filme. Agora ela sabe que estou afim… Poxa, eu devia só falar que ia ajudar - só isso! Não devia falar das intenções! Ahhh, como sou idiota!!!


[3]Essa afobação do Gil era uma mistura de desejo e medo… não sabia a hora de convidar e por isso, sempre levava um não!


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