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  • Rildo Moraes

LENDAS parte 4 (15 a 19)

Atualizado: Jan 16

15. SIGA-ME

Algumas pessoas estavam conversando com o monge. Gil aproximou-se e ficou aguardando uma oportunidade de falar-lhe e, enquanto isso, observava curioso o estranho anel. Após alguns minutos, o monge se despediu das pessoas, dirigiu-se ao rapaz e disse:

- Siga-me.

Pediu licença aos demais e levou Gil até uma sala mais afastada do altar. Gil o acompanhava ligeiramente assustado e curioso. Seu coração pulsava mais rápido, a boca estava seca e uma estranha sensação percorria seu corpo.

Chegando lá, o monge pediu-lhe que se sentasse, fechou a porta e disse:

- Pensei que não viria!

Boca aberta e olhos arregalados, essas foram as expressões de Gil. E isso durou vários segundos. Depois, como quem acorda de um sonho, Gil disse:

- Como assim? Você estava me esperando? Por quê?

Claro, meu jovem. Afinal estou aqui a pedido do venerável Arok-ta-Beish. E devo confessar-lhe que meu sermão foi exclusivamente para abrir os seus olhos.

Boca aberta e olhos arregalados, essas foram as expressões de Gil. E isso durou vários segundos.

- Aguardo você amanhã por volta das 20h, tudo bem?

Boca aberta e olhos arregalados, essas foram as respostas de Gil.

- Meu jovem, você está passando bem?

Após recuperar-se do susto, Gil perguntou:

- Você é um Kiraya? Então tudo aquilo que sonhei era verdade?

- Mãe Amada! Não, não sou um Kiraya, sou o Papai Noel! - respondeu o monge soltando uma gargalhada.

- Mas... Como um monge pode ser um guerreiro?

- É... Você tem muito que aprender... Kirayas são buscadores, há diversos deles em todos os lugares: igrejas, templos, terreiros, centros, escolas misticas, esotericas, de yoga etc. Ao se tornar um Kiraya, rapidamente descobrirá outros kirayas! Você achava que eu era apenas um pacato monge, não é verdade? Pois saiba que entrei

no mosteiro e descobri que há linhagens de Kirayas nas barbas da Igreja. Homens santos e sagrados, de origem cristã, foram grandes guerreiros. Eu, particularmente, fui educado de acordo com os segredos do Abade Tritemo (18) e do monge Eliphas Levi (19)

, grandes guerreiros do passado, mais conhecidos pelo título de alquimistas!

- Nossa! Existiram alquimistas dentro da Igreja?

- Ainda existem! Isso sem falar de Roger Bacon(20) , Cister(21) , São Tomás de Aquino (22), Raimundo Lulle(23) , Basile Valentin(24) , John Cremer (25) e tantos outros.

- Nossa! Só faltava ter papas!

- Pois então, meu jovem, estude a vida do Papa Silvestre II – um grande alquimista do século X e a vida do Papa João XXII(26).

- Os alquimistas buscam transformar chumbo em Ouro né?

- Isso é o que as pessoas pensavam... é pensam ainda. A verdadeira arte da alquimia é uma transmutação espiritual. Alegoricamente diziam querer transmutar chumbo em ouro, quando na verdade usavam esses termos para nao serem incomodados nem pelos nobres e nem pela igreja! O que buscavam era transformar o chumbo da personalidade em ouro do espirito! Todo kiraya é um alquimista. Mas, chega de conversas. Espero-te aqui amanhã, às 20h. Entendeu? Ah, sim...Caso queira vir, óbvio.

- Mas é claro que virei!

- Bico calado, entendeu?

- Pode deixar! Put* merd*, isso é tudo que eu queria!!

Num movimento rápido, o monge pegou Gil pela gola da camisa e disse num tom firme, apontando o dedo:

- Respeite o ambiente e com quem está falando. Não sou seus coleguinhas!

Gil arregalou os olhos, engoliu a saliva e fez um sim com a cabeça. Mathias soltou sua roupa, sorriu e disse

- Que bom. Até amanhã.

Gil saiu e ele saiu em seguida, no corredor o padre Antonio o viu e disse:

- Irmão Mathias, vem cá um pouquinho para falar com essa senhora.

Quase no mesmo instante, do outro lado do corredor, Ana o chamou também. Atordoado, lhe disse:

- Meu bem, vamos embora? Essa missa foi muito profunda para mim, quero ir para casa para refletir.

- Que bom Gil, você está encontrando seu caminho espiritual. Tem mais é que refletir e vir mais à Igreja. A melhor coisa do mundo é vir para igreja. Só o fato de vir já nos faz pessoas melhores do que aqueles que não vem! Vou me despedir das amigas e já vamos. Vou dar carona para a Aurora, ela é uma pessoa que vive cheia de namorados... já está com a alma perdida e nem sei porque continua vindo à igreja!

Quando Ana se retirou, Gil ficou ainda mais pensativo, o que ela falou é algo totalmente anti-espiritual, pensou ele!

Por fim, saíram da Igreja. No carro, Ana conversava alegremente com a Aurora - uma sorridente japonesa, ou melhor, uma descendente de japoneses que tinha uma longa cabeleira negra e era muito amável. No caminho, Gil se surpreendia em ouvir a Ana chamá-la de “grande amiga” ou “irmã amada”. Estavam combinando um lanche, o qual o Gil já havia dito que, pelo mal estar, preferiria não ir com elas.

Ana o deixou em casa - um tanto chateada por naõ ir no lanche, mas feliz por ele ter ido a Igreja.. Despediram-se com beijinho e ele subiu vibrando - nem percebeu que o porteiro olhava cuidadosamente, para em seguida fazer uma estranha ligação.

Em casa, seu pai já estava na cama - ótimo! Passou pela cozinha, pegou uma maçã que já estava notoriamente passada e levou para o quarto. Estava em êxtase! Feliz como nunca. Mas sabia que ninguém poderia saber! Acessou a Internet e tentou procurar alguns dos nomes mencionados pelo monge, lembrou-se de dois: Eliphas Levi e Abade Tritemo. Ficou surpreso que Eliphas era um grande mago e Tritemo foi mestre de famosos alquimistas, como Paracelso, Fausto e Agripa. Ele, que nunca se interessou por espiritualidade e menos ainda por alquimia, agora estava extasiado pelo assunto.

(18)Abade alemão que viveu no século XV-XVI, grande mestre alquimista. Descobriu manuscritos sagrados dentro do próprio mosteiro. Iniciou-se nos grandes mistérios. Foi mestre de Paracelso.

(19)Grande mestre cabalista do século XIX.

(20)Monge franciscano francês que viveu no século XIII, chamado de doctor mirabilis – doutor admirável . Autor de vários textos alquímicos, entre eles, o famoso Secretum Secretorum

(21) Monge e alquimista francês.

(22) teólogo, filósofo e alquimista, autor do Tratado da Pedra Filosofal, viveu na Itália no século XIII.


16.OS QUATRO GRAUS DE CONSCIÊNCIA


Segunda-feira, Gil trabalhava empolgado. Queria que chegasse logo a noite para conversar com aquele estranho monge, mas para seu desespero, um e-mail recém chegado da sua chefe-namorada diz: “vamos lanchar após o trabalho?” Isso o inquietou. O encontro com o monge não pode ser desfeito. O que fazer?

Respondeu com um SIM, mas queria dizer NÃO. Nessa hora teve vontade de ter o contato telefônico do monge Mathias (será que ele tem?) para lhe pedir um conselho. O que fazer nessa situação?

Meia hora depois de muita agonia, recebe outro e-mail da Ana:

“Acabei de ser informada que irei fazer um curso em São Paulo, a Grazi - aquela branquela de cabelo preto do RH - não poderá ir e eu irei no lugar dela. Só voltarei sábado. Vou agora para casa fazer a mala. O vôo é no final da tarde. bjs”.

Gil ficou espantado, feliz e aliviado! Porem, antes dela sair, ela passou em sua mesa para se despedir discretamente . Ele estava tão espantado que ela que após ela sair, recebeu a seguinte mensagem no whatsapp: “Calma meu bem! Foi um imprevisto, fico uma semana e já volto, não precisa ficar com essa cara! Te adoro” - Gil estava espantado por outro motivo: que sorte ela sair assim e ele poder ir falar com o monge!!!


Às 18h, saiu do trabalho e conforme combinado, passou na casa do Tucão, fizeram um lanche e foram juntos até a Igreja. Gil ainda estava perdido e por isso pediu para seu amigo o acompanhar. Tucão, como bom amigo foi - e ria disso tudo. Chegando na Igreja, combinaram que Tucão ficaria esperando ele do lado de fora.

- Vai lá Gil, se esse monge for um ET tú me avisa que arrebento ele na porrada - disse rindo!


Gil riu e seguiu para a sala combinada e nem percebeu que Tucão saiu para fumar na lateral da Igreja. Ansioso e levemente assustado, parou na frente da porta e sentiu um frio na barriga. Bateu três vezes e ouviu o monge dizer “entre!”. Ao entrar na sala que já esteve, atendeu ao sinal do monge para fechar a porta e sentar-se.

Gil estava alterado, o medo e a curiosidade afetavam seus movimentos. O monge apenas o observava. Dessa vez não estava de túnica, usava uma calça jeans e camisa pólo branca.

- Bem, eu... Eu estou aqui...E... E agora? – questionou Gil um pouco nervoso.

Mathias percebeu o nervosismo do rapaz, por isso, orientou:

- Respire fundo, segure um pouco o ar e solte pela boca, bem devagar, junto, solte seus músculos. Relaxe. Faça várias vezes, vai se acalmar.

Obediente, logo Gil se acalmou. Mais tranquilo, ele observou que o monge colocou um pano sobre um relógio que estava sobre a mesa. O relógio marcava 20:15.

- Muito bem, meu jovem. Antes de qualquer coisa, saiba que existe um princípio fundamental que você deve obedecer para continuar nesses estudos. Trata-se do SILÊNCIO! Não fale nada a ninguém sobre esses estudos. Não conte a ninguém sobre suas vivências entre os Kirayas do Amazonas, entendeu? [23]

- Sim, não irei comentar nada com ninguém.

Um frio percorreu a espinha do jovem. Afinal, já havia contado muito a seu amigo Tucão.

- Muito bem, meu jovem, parabéns! – exclamou o monge que bateu levemente as palmas, pois acreditava no que ouvia.

Para elucidar mais, comentou que o aprendizado das artes sagradas é para pessoas escolhidas para isso, portanto, não cabe ao orientado falar de seus aprendizados junto às pessoas mundanas. Deixou claro que romper com esse princípio equivale a pedir pela expulsão sumária e, dependendo do grau de

Informação que seja repassada a estranhos, poderá sofrer uma punição. Citando a Bíblia, lembrou a passagem em que o Mestre disse para não atirar pérolas aos porcos [24].

Falou também que o buscador da verdade deve ter coragem para questionar as orientações recebidas, pois só os tolos aprendem de cabeça baixa. Entretanto, duvidar significa: tentar experimentar o que foi falado e questionar apenas se não conseguir êxito. Não é função do orientador entregar as verdades , pois a verdade. A verdade deve ser experimentada por si próprio.

E disse ainda que o aprendizado se faz quando se permite aprender. Nossos antigos conceitos, bem como medos, deverão ser sabiamente desfeitos, afinal, conhecimentos novos pedem uma mente nova. Citou novamente os livros sagrados [26].

– Entenda, Gilmar, só a prática o fará capaz de caminhar nas cinco linhagens do conhecimento.

- Como assim? Quais são essas linhagens??

- Trata-se dos cinco caminhos que um kiraya deve percorrer para ser pleno em seu desenvolvimento. São eles:

1) A linhagem Contemplativa, onde vamos estudar as orações e as práticas de meditação;

2) A linhagem Combativo, para aprender e se defender e defender quem está ao seu lado;

3) A linhagem Curativa - aqui estão os cuidados com a saúde e a arte de curar;

4) A linhagem Psicológica, importante para compreendermos como funcionamos internamente e

5) A linhagem Mágica, para compreendermos a questão das energias e a magia da vida.

Tudo isso compõe um antigo conhecimento chamado Kyan-pô.

- Nossa! Que interessante, vou aprender tudo isso? Mas o que é kyan-pô?

Mathias fez silêncio e sorria. Observava as inquietudes do jovem Gilmar. Sua curiosidade e sua notória agitação psicológica faziam dele um perfeito Puraya. Também Gil observava, admirado, o monge. Após o breve silêncio, Mathias falou:

- Kyan-pô é uma palavra tibetana que significa “estreito” ou “difícil”- é a base de formação de um kiraya. Falaremos muito sobre isso mais a frente. Você terá a base de todas as linhagens e depois, só depois, irá se especializar em uma ou mais delas. Bom, vamos começar sua primeira aula? Vamos tratar primeiro dos graus de consciência ou percepção de mundo. Você já percebeu a quantidade de diferentes igrejas sustentadas pelo mesmo livro, a Bíblia? (ou qualquer outro livro sagrado?). Por que tantas contradições, tantas interpretações diferentes? Em todos os meios espirituais ou espiritualista, como desejam, há divergências. - por que isso ocorre? Já se perguntou?

Gil, que nunca havia se detido nessa questão antes, fez uma cara que dizia: “isso é verdade, mas não sei porque isso ocorre, pode me contar?” - seu “feed-back ” [26] foi rapidamente percebido pelo monge que explicou:

- A reposta é simples, é que existem quatro diferentes graus de consciência e cada grau faz a pessoa interpretar a vida (bem como os livros) de seu jeito. Para falar disso, vou utilizar os conceitos do filósofo grego Platão. Preparado?

- Devo anotar? Eu não truci nada!

- Eu não trouxe nada!!!! É a correta expressão em língua portuguesa. - exclamou o monge para em seguida completar: Eu esqueci de lhe pedir que trouxesse um caderno, por isso, esse aí no canto da mesa eu comprei para você. Anote, mas ouça e entenda primeiro.

Deu-lhe também uma caneta. Depois começou a explicar que o grau mais baixo de consciência chama-se, do dizer de Platão, Eikásia, palavra grega que significa sonho ou fantasia. Possuem esse grau as pessoas rudes, brutas e instintivas, incapazes de ver além de seus sonhos e desejos. Quando religiosas, possuem uma concepção que só venha lhes oferecer o que necessitam e nunca cobrar nada deles. São capazes até de orar antes de cometer um crime. É um nível ruim. Pensam apenas em si mesmos.

Em seguida falou que o segundo grau de consciência é o estado de Pistis, palavra grega que significa crença. Nesse grau vivem pessoas cheias de opiniões, crenças, fanatismos, teorias religiosas ou materialistas sem nenhum contato direto com a verdade. Medo e tradição mantêm muitas pessoas nesse estado, o que os impossibilita de entenderem coisas mais profundas. Por não entenderem com clareza, fazem leituras superficiais dos livros sagrados e vivem de conclusões superficiais. A maioria da humanidade esta aqui!

Já o terceiro grau de consciência é conhecido como Dianóia. Um nível de pensar mais refinado que o anterior. Ao estado dianolético pertencem as pessoas que estão revisando seus conhecimentos, suas crenças e têm coragem para buscar respostas plausíveis e perceptíveis. Aqui vivem os Purayas - os iniciantes no kyan-po, bem como os kirayas, que já caminham a mais tempo. Aqui estão os questionadores, os que tem fome e sede da verdade.

O monge fez uma pausa, admirou os olhos arregalados do Gil, deixou ele concluir as anotações e continuou:

- O mais alto grau de consciência recebe o nome de Nous, é a percepção direta da realidade, trata-se de uma consciência desperta e em pleno funcionamento. Pessoas nesse grau de consciência possuem elevado grau de percepção, intuição e iluminação. Vivenciam toda a verdade que expressam, por isso, não possuem

crenças nem dogmas, apenas a vida vivida plenamente de acordo com a Verdade Absoluta. Esse é o grau desejado, o grau que não é de um Puraya e nem Kiraya, é o grau de um Niraya - o sem-dualidades!

Ao observar o término da exposição de Mathias, Gil não se conteve e começou uma série de perguntas, estava com tantas dúvidas e curiosidades, que as perguntas surgiam na velocidade de uma metralhadora. Ele queria saber em que grau estava, se as pessoas poderiam mudar de grau e como isso ocorreria, qual o grau do monge etc.

- Calma, meu jovem. Uma pergunta de cada vez.

Com paciência o monge foi elucidando as dúvidas do seu pupilo. Deu ênfase em responder sobre o grau que nos estamos:

- Para descobrir em que grau você está, temos que fazer uma análise sincera da qualidade de suas percepções. Ou seja, qual é o grau de crença e de verdade em seu interior? Qual o grau de misticismo barato e fantasias em sua mente? É assim, questionando e analisando nosso comportamento, que iremos descobrir em que grau nós estamos. Entendeu?

Gil fez um sim com a cabeça e anotou mais algumas coisas.

- Ótimo! Com o tempo você vai aprender o seu nível e como mudar ou ampliar.

Discutiram mais um pouco e então o monge disse:

- Terminaremos a primeira aula com uma lição para casa: para ver se você entendeu isso, quero que me traga exemplos reais de pessoas nesses quatros estados de consciência. Voltaremos na próxima segunda, nesse horário. Analise tudo que lhe falei. Anote e estude.

Gil queria fazer mais perguntas, mas o monge interrompeu:

- Sei que ainda tem muitas perguntas, mas se eu for responder todas, ficaremos dias aqui, certo? Agora vá, tenho outras atividades.

O monge levantou-se rapidamente e saiu. Gil ficou parado por alguns instantes e, curioso para saber as horas, retirou o pano que cobria o relógio, ele marcava 20:16. Gil estranhou, aparentemente o relógio estava funcionando, mas sua hora estava, obviamente, errada, pois quando ele foi coberto, eram 20:15. Olhou seu celular: 20:16 - como assim???


Na saída da igreja, demorou para achar Tucão, pois estava na lateral fumando (isso não era o combinado). Tucão olhou assustado e perguntou: Já??? Não rolou nada?

Ainda sem entender o ocorrido, descobriu que o tempo realmente não passou!

- Fala, meu bróder! O que o monge te disse? Insistia Tucão.

- Você não vai acreditar! Eu fiquei um tempão conversando com ele!!!!

Gil estava perturbado com o ocorrido e Tucão achava tudo muito engraçado e, no fundo, duvidava do Gil.


Nessa noite demorou mais para dormir. Eram tantas novidades e tantas perguntas, que isso lhe causava um estranho desconforto. Afinal, onde isso tudo o levaria?

Só agora viu uma mensagem da ANA, ela estava toda feliz, assinou uma revista de moda e vai poder andar no estilo, como ela lhe disse! Gil não comentou nada, tentava dormir e pensava nos estados de consciência.


[23] Uma das quatro regras nos ensinamentos secretos: Saber, Ousar, Querer, Calar

[24] Matias refere-se ao Evangelho de Mateus 7:6 “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as pisem e, voltando-se, vos mordam.”

[25] Provavelmente Matias citou Marcos 2:22 “E ninguém guarda vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho novo romperá os odres, e perder-se-á o vinho e também os odres; mas guarda-se vinho novo em odres novos”.

[26] Resposta, normalmente, inconsciente que damos através de gestos, olhares, expressões e sons - Mathias é muito bom em fazer essas leituras!


17. DROGAS

O tempo seguia seu ritmo. Toda segunda-feira Gil estava com seu mestre. Aprendi várias coisas sobre a Vida e o Ser. Aprofundou nos códigos de honra, caráter e lealdade, descobriu a energia vital que há em tudo e inicio os estudos de cura com as mãos. em meio a tantas novidade, não se apercebeu de dois movimentos: o porteiro do seu prédio que agora virou amigo do seu pai e frequentava seu apartamento e também da sua namorada que agora, após chegar de São Paulo, mantinha constantes diálogos com um rapaz que conheceu lá. Ela adorava o Gil, mas certamente começou a se encantar por um outro rapaz. Gil não percebeu que ela não se incomodava com seu curso noturno - e ele não reclamava disso!

Era domingo a noite e Gil recebeu uma ligação perturbadora:

- Gil, o Tucão foi internado! Ele estava alucinado!!! A droga tá acabando com meu filho! Pelo amor de Deus, ore por ele! - era a mãe desesperada do Tucão, seu grande amigo.

Isso foi um baque! O Tucão? Como assim? Impotente diante dos fatos, Gil aguardou seu encontro com Mathias na segunda-feira.

Na segunda, após o trabalho, dirigiu-se rapidamente à Igreja. Chegou mais cedo, como esperado, bateu na porta da sala de Mathias e, felizmente, ele estava lá.

- Chegou mais cedo, meu jovem! - dizia enquanto arrumava uma papeis na mesa, hoje quero falar de acesso às outras dimensões. Acabou de arrumar a mesa, olhou para Gil - em pé na porta - viu sua cara desesperada e perguntou?

- O que aconteceu?

- Meu amigo Tucão tá com sérios problemas com drogas. Como posso ajudá-lo?

Mathias ficou sério. Pediu pra Gil se sentar e começou a falar:

- Antes de ajudá-lo, você tem que entender algumas coisas. Já falamos que o mundo físico ou tridimensional (esse que estamos agora) não é tudo. Há mundos superiores e inferiores. E porque, normalmente, não percebemos isso? Porque a sábia natureza nos deu uma tela, um tipo de filtro, que não permite que percepções de outros mundos invadam nossa mente, o que só traria confusão às pessoas comuns[27]. Sem essa proteção uma entidade qualquer poderia manipular uma pessoa que não está preparada para enfrentar tais entidades. Compreende-se, pois que um defeito ou dano nesta tela, ocasionaria um terrível desastre. Consegue entender isso?

- Sim, mas o que isso tem a ver com as drogas?

Mathias suspirou fundo. Fez uma pausa e respondeu:

- Supondo que nessa cabeça oca ficou algum entendimento do que falei, saiba que as drogas [28] afetam essa tela… e sua ruptura irá gerar visões perturbadoras conhecidas como alucinações, bem como pode incitar desastrosas alterações emocionais que podem levar a pessoa a se matar ou matar ate mesmo quem ela ama.

Gil não se conteve: - Então, ao abusar dessas coisas que o senhor falou, poderemos romper essa fina telinha que impede esse fluxo de percepções do outro mundo e, como é uma ruptura feita sem consciência, seu efeito será sempre nocivo e perturbador, certo?

Mathias arregalou os olhos e abriu a boca...se recompôs e brindou seu jovem pupilo!

- Muito perspicaz! É isso mesmo que eu estou tentando te falar! - e riu em seguida. E já que você é esperto, anote aí: há um outro problema que pode ocorrer com essa tela... E não é sua destruição!

- Uai, se não é a destruição... É o quê?

- É sua obstrução!

Diante da cara abismada do Gil, Mathias continuou:

- Isso ocorre com mais frequência que a deterioração! Essa tela impede que energias do outro mundo cheguem até nós sem nossa permissão, mas por ela passa as energias espirituais que nos mantêm ligados à Divindade. As drogas [veja notação 28] podem mergulhar o indivíduo no estado de Eikasia [veja capítulo anterior], tornando-o insensível às dores alheias, podendo gerar brutalidade e descontrole. Perde o sentimento de responsabilidade e é capaz de roubar ou matar para conseguir manter seu vício.

- Caramba!

- Isso tudo sem falar dos problemas físicos! Há impactos no corpo… o que ele usava?

- Até onde sei era maconha… o senhor é tipo um médico também?

- Não, mas a muito tempo tive que treinar uma jovem, então tive que adentrar num hospital, já que ela era atéia! Atuei como enfermeiro durante uns 2 anos.Ms isso é outro assunto, voltemos ao caso do seu amigo...como é mesmo o nome dele?

- Tucão!

- Tucão!? Tá bom, vamos ver agora como você poderá ajudá-lo.

- O senhor acha que ela tá bem?

- Provavelmente pronto para começar a fumar.


Mathias deu uma aula dos cuidados médicos a qual Tucão deve ter passado, tal como hidratação, ventilação, uso de vitaminas e remédios e uma possível lavagem gástrica. Depois ponderou sobre o uso da maconha, que aparenta ser simples e por isso poderá ser usado acima da tolerância corporal gerando hiperemia ocular, ataxia (descoordenação motora), fala arrastada, boca seca, aumento do apetite, taquipnéia, taquicardia, fraqueza, desmaio e até hipertensão arterial. Causando também distúrbios psíquicos como prejuízo da memória/coordenação/ atenção, alteração da orientação espaço-tempo, perturbações sensoriais (alucinações, ansiedade).

Ao final, aguardou a pergunta do Gil: o que fazer? E deu uma outra aula:

- Esse é o ponto delicado. Não há nenhum tratamento específico e funcional que sirva para todas as pessoas. Há muitas particularidades, por isso, serei genérico. Há casos de pessoas que recebem influência psíquica de outros seres, os chamados encostos ou obsessores[29]. Nesse caso há que se desfazer esse vínculo, depois irei ensinar técnicas para isso. Mas, na maioria dos casos, o que há por trás é a influência de amigos e colegas, uma questão psicossocial. Nesses casos, afastá-lo do grupo, mudando para outro local e prover novas atividades tem sido o método mais funcional! Para muitos, isso significa ser internado, para outros, mudança de cidade.

- A família do Tucão não tem dinheiro para mudar ou internar ele! Será que é só espiritual?


Mathias olhou gravemente para o Gil e disse num tom firme: O problema do seu amigo está nas escolhas erradas que ele fez. Não cabe a você ignorar sua vida pra resolver a vida dele. Porém há um porém: se ele é teu amigo, ajude-o sempre, mas sem se envolver. Esteja por perto, dê bons conselhos, chame-o para outras atividades, converse e descubra seus medos e anseios e que tipo de ajuda ele busca na droga! Ajude, mas não faça disso um problema pra você, se agir assim, não conseguirá ajudá-lo. E te digo mais: amigo meu, nunca fica para trás!

Gil ficou empolgado e saiu direto pra casa do seu amigo. Até esqueceu de perguntar sobre a estranha suspensão do tempo da outra reunião. E só se lembrou disso quando viu as horas: o tempo foi novamente suspenso! Como ele faz isso???

E Tucão já estava em casa e ficou muito feliz com a vinda do amigo. Gil, empolgado com suas próprias transformações, olhou para o amigo e disse:

- Você é um grande amigo. Não vou deixar você afundar nesse buraco por uma questão muito simples: eu amo você! Você é meu irmão!

Tucão começou a rir, para desencanto do Gil...

- Desculpa aí Gil, mas eu gosto de mulher!

Por fim, riram juntos e conversaram muito. Quando Gil se despediu e saiu, Tucão ficou olhando ao longe e algo se mexeu dentro dele. Era sua alma aliviada por saber que tem um amigo que o ama!





[27] Também conhecida como tela búdica ou tela astral, ela tem por função impedir que influências astrais entrem prematuramente na consciência física. Mas ela também impede em condições normais a clara recordação do ocorrido durante o sono, e é a causadora da temporária inconsciência que se segue sempre à morte. Sem esse importante mecanismo, o homem comum, que nada sabe destas coisas e está completamente desprevenido contra elas, poderia ser em qualquer momento vítima de uma entidade astral que o pusesse sob a influência de energias irresistíveis. Ou então estaria exposto à constante obsessão por parte de qualquer entidade astral desejosa de se apoderar de seus veículos.

[28] Além das drogas, há outras formas de danificar esse filtro ou tela, tais como choques físicos geradores de espasmos ou fortes impactos emocionais (medo, ira..); abuso de álcool e até mesmo certas práticas psíquicas podem igualmente romper a membrana e abrir as portas que a natureza pretendia manter fechadas.

[29] Trata-se uma entidade perturbada que se apega a uma pessoa e sua influência perniciosa torna-se constante. Resumindo, a obsessão ocorre toda vez que alguém, encarnado ou desencarnado, exercer sobre outrem constrição mental negativa — por um motivo qualquer — através de simples sugestão, indução ou coação, com o objetivo de domínio.


18.DESISTA

No decorrer da semana, Gil falou várias vezes com Tucão. Nunca mais aceitou os “cigarros” do amigo. Falavam sobre a vida e projetos. Quando Tucão lhe perguntava do monge, Gil dizia que nunca houve nada, era apenas brincadeira. No trabalho, Diana lhe perguntou:

- Você e Ana se separaram?

Gil tentava provar que nunca teve nada com ela, conforme prometera a ela, mas parece que todos na empresa já sabiam desse namoro! Desconversou e saiu. Não demorou para Jair lhe fazer a mesma pergunta. Já sem desculpas, questionou o motivo da pergunta e foi Jair que desconversou.

De fato, a relação dos dois estava esfriando. Já não saiam como antes e nem trocavam tantas mensagens mais. Gil sentia que estava acabando, mas não queria tocar no assunto, ele ainda pensava: “sim, nossa relação está é ruim… ela é fria e arrogante, mas eu sei como conviver com ela. E se eu largar ela e não achar mais ninguém?” o seu medo da mudança supera sua vontade de mudar!

Decidiu convidá-la para uma pizza após o expediente. Ela, por falta de desculpas, aceitou.

Na pizzaria, enquanto aguardavam, aconteceu o seguinte diálogo:

- Ana, como foi o seu dia?

- Normal.

- O que aconteceu?

- O de sempre.

- O que você está com vontade de fazer esse final de semana?

- Eu não sei. Acho que quero ficar em casa.

- Ana, que tal convidarmos nossos amigos para assistir um filme?

- Não sei Gil...

- Caramba Ana - diz um Gil já aborrecido - por que você não conversa comigo?

- Que frescura é essa Gil??

- Você tem outro?


Ana fez silêncio, olhou com raiva e saiu! Gil, imóvel, observava ela ir embora. Ressentido, triste e se autopunindo, ia saindo quando sua pizza chegou! Gil não queria admitir que ela já não gostava mais dele, mesmo sendo tão ausente e pouco carinhosa. Em casa, ela aproveitou para ligar animadamente para Rafael, um rapaz de Campinas, interior de São Paulo, que conheceu num curso que fez. E Gil, em casa, se perguntando, onde errei?

A semana foi difícil para Gil, no trabalho, ela se comportava como se nada tivesse acontecido. E ele, cada vez se sentindo pior. Sábado saíram, foram comer risoto de camarão, já que ela dizia estar com muita vontade. Mas nada muito especial aconteceu. No domingo, ela nem respondeu suas mensagens. Gil rezava pra chegar segunda feira e falar com o monge!

E a segunda chegou. Na sala com o monge, Gil entrou fazendo uma pergunta:


- Como faço para reconquistar uma pessoa amada? O senhor conhece amarrações ou simpatias para isso?


Mathias olhos assustado com a pergunta. Depois sorriu e disse: sente-se rapaz, vejo que algo abalou seu coração. Gil contou o ocorrido. O monge coçou o queixo, fez uma expressão de pesar, pois se simpatizou com a dor do Gil, mesmo sabendo que não era uma dor tão profunda como o rapaz imaginava. Então, sorriu e perguntou:

- Qual a pessoa mais importante pra você amar?

- Meu pai?

- Vou refazer a pergunta: qual a pessoa que você mais ama?

- Hummm… acho que é a Ana.

- Imagino que sim, e aí está o problema.


Gil fez cara de espanto e antes que perguntasse, Matias falou: Você tem que amar muito a si mesmo, pois só assim poderá receber amor bom. Quando nós não nos amamos, qualquer tipo de amor parece ser bom!

  • Mas ela me amava plenamente! Ela sempre me fazia feliz! Eu que não soube cuidar desse amor - rebateu Gilmar! Após um silêncio, completou: Nunca mais vou amar ninguém!

Matias, levemente preocupado com o fato do rumo das aulas que está mudando, pois o Gil sempre aparece com um problema novo, decidiu ajudá-lo novamente e então perguntou:


- Gilmar, meu jovem, quem é obrigado a amar você?

- Ah? Obrigado? Acho que só meu pai!

- Resposta errada! Ninguém é obrigado a amar ninguém e nem todos os pais amam seus filhos e nem todos os filhos amam seus pais... e tá tudo bem! O amor existe não por costume ou regra, existe sem motivos! Mas te faço outra pergunta: a pessoa que você ama é obrigada a te amar?


Gil ficou confuso com a pergunta, pensou um pouco e disse: Acho que não!

Mathias sorriu e confirmou: você está certo, mesmo amando sua namorada, isso não a obriga a te amar!


- Mas, por que o amor acaba?

- Há várias questões envolvendo isso. Vou resumir em dois. Na maioria dos casos, nunca houve amor, houve paixão.. e essa paixão, infelizmente, não se converteu em amor, mas em vício que, com o tempo, se desfaz. Em outros casos, há amor, mas não é cultivado adequadamente e também esse se desfaz.

- Então, o senhor está dizendo que ela não me amava...ou que eu não a amava?

- Não estou dizendo isso. Provavelmente vocês se amavam, dentro das possibilidades emocionais de cada um. Mas, não foi o suficiente.


Gil estava inquieto, novamente questionou o monge sobre algum método mágico para reconquistá-la e teve a seguinte resposta:

- Então, quando amamos alguém que não quer estar conosco, devemos usar laços mágicos para aprisioná-la ao nosso lado? Isso é amor, apego, desejo, medo ou carência?

O rapaz sentiu-se desconfortável, falava de amor mas queria aprisioná-la. então disse:

- Eu estava brincando!


Matias sorri e diz: sim, eu sei!

- O senhora tá certo, mas sinto uma dor…

- Gilmar, meu jovem, toda perda gera dor. E a vida é cheia de perdas. Sei que é difícil acreditar agora, mas vai passar. O amor não é escasso, pois sua fonte é infinita! E vou te dar três conselhos: “Nosso apego é origem de muitas dores”[30] por isso, quando você se apega a algo, mas você vai sofrer, pois tudo nesse mundo pode mudar a qualquer momento. Ame, mas deixe fluir…O outro conselho diz: “a dor é desnecessária, mas pode ser aprimoradora”[31] onde podemos entender que não estamos aqui para viver de dores, mas se há alguma dor, aprenda com isso. Aprenda onde errou para fazer melhor em outro momento. e por fim, mais um conselho, “Colabore com o inevitável”[32] ou seja, não adianta espernear, gritar, dizer que é injusto… há coisas que acontecem e não tem nada a ser feito, apenas sentir a dor em silêncio, respeitar o momento e depois, voltar a atividade normalmente.

Gil ficou pensativo. De certa forma, mais tranquilo e então soltou:


- Mas a gente não tem que lutar e jamais desistir?

- Bobagem. é claro que temos que lutar, mas devemos saber a hora de parar… há lutas inglórias. Tem pessoas que interpretam mal aquela frase do Cristo que diz para bater e a porta irá se abrir[33]. Tem gente que tá batendo na parede, como a porta vai se abrir? Temos que ser perseverantes, lutar e não desistir..mas há um porém, as vezes nossa luta não vai nos levar a felicidade que pensávamos ou o custo é muito alto, nesse caso, temos que ter coragem para desistir.

Gil ficou surpreso. E até mais empolgado, então mudou de assunto: Como o senhor fez o tempo parar? Ia te perguntar e esqueci. Como o senhor faz isso? Eu vou aprender também?

Mathias deu um meio sorriso. E explicou:

- Não existe, como nos é ensinado, um padrão fixo de tempo. Já reparou que uma pessoa pode ter um pequeno cochilo e um sonho tão longo e profundo? Pois é, no mundo astral, ou mundo dos sonhos ou mundo das emoções, também chamado mundo dos espíritos, lá o tempo é diferente. O que faço é bem simples: me sintonizo com suas emoções (quando está calmo) e faço pulsos magnéticos mentalmente com objetivo de dobrar o tempo físico com o tempo astral. Só isso![34]

- Ah tá - disse um Gil que não entendeu nada .E eu vou aprender isso um dia?

- Talvez - responde Mathias, sem intenção de adentrar nesse complexo assunto.

- Eu me sinto mais calmo. Posso chamá-lo de mestre?

- Que bom que está melhor. Pode me chamar de mestre, desde que saiba que mestre é apenas sinônimo de professor e não de guru.


Conversaram mais, e no final, preocupado com a lentidão das aulas e atrasos, pediu que Gil contactasse três jovens kirayas que estavam em Brasília. Deu o endereço do hotel onde estão hospedadas e avisou para estar lá amanhã às 19h. Gil se despediu e foi para casa empolgado, o que será que elas irão lhe ensinar?



[30] Esse é o conselho nº 29 do kyan-pô.

[31] Esse é o conselho nº 30 do kyan-pô.

[32] Esse é o conselho nº 32 do kyan-pô.

[33] Ele se refere a Mateus 7:7 que diz: “Pedi, e vos será concedido; buscai, e encontrareis; batei, e a porta será aberta para vós”

[34] Mathias não é um kiraya comum! Desdobramento temporal é uma arte muito rara e nem um pouco simples.


19.DIP

No outro dia, ciente que deveria ir apenas após o almoço para seu trabalho, devido a uma dedetização, levantou mais tarde e ficou surpreso ao descobrir que o porteiro gentilmente trouxe algumas latas de cerveja para seu pai! Aliás, seu pai se referia a ele como “um grande amigo!”.

Passada a surpresa, após um rápido café da manhã voltou a seu quarto. No computador, olhando o e-mail, se deparou com uma mensagem da sua amiga Lúcia, uma morena simpática que sempre lhe enviava mensagens espiritualista, as quais geralmente eram apagadas antes de serem lidas. O texto falava de Buda e Gil, agora iniciando seus estudos espirituais, resolveu ler. Era uma frase que Buda dizia a um homem:


"Brâmane, assim como uma flor de lótus azul, vermelha ou branca nasce nas águas, cresce e mantém-se sobre as águas intocada por elas; eu também, que nasci no mundo e nele cresci, transcendi o mundo e vivo intocado por este. Lembre-se de mim como aquele que é desperto." (Anguttara Nikaya - II: 37).


Gil começou a buscar informações sobre Buda e ficou encantado. Em uma de suas buscas, viu uma curiosa comparação entre Francisco de Assis e Buda, pois ambos largaram a cômoda vida que viviam. Buda era filho de um rei e seria o novo rei, Francisco era filho de uma família rica na cidade de Assis, e abandonaram tudo em busca por respostas espirituais).

À tarde, no trabalho, mal falou com Ana. Notoriamente a relação tinha acabado, mas ninguém iniciava a conversa para concluir de fato. O ciclo mantinha-se em aberto, machucando ambos[35]. Tomado por coragem, Gil lhe enviou uma mensagem pedindo para que combinassem uma saída, pois deviam conversar. Ela leu, mas não respondeu.

Encerrado o expediente, saiu sem falar com ela. Falar o quê? Com o endereço do hotel, foi atrás das jovens guerreiras - ansioso por novidades! e por um momento mais agradável, pois ta muito, mas muito chateado em sua relação com a Ana.

Ao chegar no hotel, no Setor Hoteleiro Sul. Pediu, na recepção, que avisasse de sua chegada. Não demorou muito e as três estão no saguão se apresentando ao rapaz. Daiane é uma mulher magra, de olhar investigativo e sorriso reservado. Izy era a mais baixa, rosto arredondado, bochechas rosadas e sorridente. Patrícia era morena, cabelos compridos ondulados, rosto meigo e suave. Gil as seguiu até o Parque da Cidade e não conseguiu esconder sua admiração. Eram três guerreiras! Queria fazer milhares de perguntas, mas temia ser deselegante e controlava a língua!

Elas, já orientadas pelo monge Mathias, tinham por missão dar algumas orientações ao rapaz, entre elas os códigos de honra, caráter e lealdade. E assim Dayane começou a falar:

- Bem, vou falar um pouco de conduta desejável a um kiraya. Essa conduta você vai perceber muito em seu orientador, o mestre Nanak, pois ele - aqui Gil teve que interromper:

- Quem é Nanak ???

- Ah, sim, você o conhece pelo nome social, Mathias!

- Como assim?


As meninas riam e olhavam para Dyane como quem diz: “agora explique!”

- Cada pessoa recebe o nome social que é o nome dado pela sua família, porém ela guarda um nome secreto ou nome de poder que o nome real que ela tem e sempre terá, esse é o seu nome de poder. Eu achei que o monge Matias já havia lhe falado isso, provavelmente ele irá tocar nesse assunto no momento certo. Eu me adiantei.

- Caramba! Isso significa que o nome que vocês me deram é apenas o nome social de vocês, qual é seu nome de poder?

- Não vamos tocar nesse assunto agora. Você, em determinado momento irá despertar com o seu nome em mente. e quando souber o seu nome, lhe contaremos o nosso ok?


Gil ficou admirado! Então existe um nome de poder para cada pessoa! Agora ele quer descobrir o dele, porém ficou claro que esse nome não é dado por ninguém, mas se descobre sozinho![36]

- Voltando à questão dos códigos de honra, caráter e lealdade é muito importante que você desenvolva esses valores dentro de você.


Patrícia interrompeu dizendo: vocês perceberam que aqueles dois sujeitos estão nos seguindo de uma forma muito estranha? Izy respondeu: sinceramente eu acredito que estão muito mal intencionados.

- Eu vou verificar isso agora, continue com a conversa e logo estarei de volta, disse Patrícia..


Gil se opôs veementemente dizendo que seria muito perigoso mandar uma menina conversar com aqueles dois caras e que ele deveria ir junto, mas elas riam e apenas disseram: venha conosco e deixe Patrícia resolver essa questão.

Seguiram caminhando e conversando e Patrícia foi em direção aos dois indivíduos que eram altos e fortes.

Eles ficaram impressionados com aquela menina vindo em direção à eles. Ela parou a uns 4 metros e perguntou: vocês estão apenas caminhando ou estão buscando encrenca? Eles se entreolharam e sorriram. O maior, que era claro e careca se aproximou um pouco mais dela e disse: você é muito gosto… - mal teve tempo de concluir a frase e recebeu um soco em diagonal descendente em seu estômago fazendo com que as vísceras se comprimissem junto com o sistema urinário jogando-o no chão, gritando de dor e se mijando todo. Então ela olhou para o outro, um negro um pouco mais baixo que seu amigo, forte e de cavanhaque pequeno e bem desenhado, e lhe disse: pegue seu amigo e caiam fora daqui.

Porém o que estava no chão gemendo dizia: “arrebenta com essa vagabunda”. Seu amigo, solidário a sua dor, sacou uma faca da cintura e partiu em direção a Patrícia. Ela percebeu que ele sabia usar uma faca, pois mantinha os punhos fechados prontos para o combate e na sua mão direita segurava a faca apontando-a para baixo e cuja lâmina de corte estava virada para ela. Ele tentava golpeá-la ou cortar o seu rosto, mas ela se defendia e se esquivava com muita agilidade. Em um certo momento ela chutou para longe a faca e em seguida apontou o dedo para o rapaz dizendo: “pegue seu amigo e caía fora daqui”. Ele não se intimidou e partiu violentamente para cima dela, gerando golpes confusos e ineficazes, pois ela se mantinha tranquila e focada. Não demorou muito pra ele receber um chute na virilha e um soco tão bem dado em seu rosto que ele caiu junto ao seu amigo.

Ela se aproxima e voz forte e firme ordenou: levantem-se e caiam fora daqui antes que eu bata de verdade em vocês. Eles nem retrucaram, levantaram e, mesmo cambaleando, sumiram rapidamente do local.

O grupo, que neste momento não conversavam mais, apenas observavam a Patrícia em ação, a recebeu calorosamente. Ela retornou com seu rostinho meigo e suave, como se nada estivesse acontecido! Porém, Gil faz um comentário que mudou o clima: você foi muito violenta!!


- Ah, claro! Eu poderia ter falado para eles “por favor deixe-nos em paz e com certeza eles iriam sair” - é isso o que você faria?

- Eu sou uma pessoa do bem e não gosto de violência.


Elas apenas balançavam a cabeça, numa evidente negativa. Patrícia disse:

- Não sei se é seu caso, mas muita gente que fala isso não é uma pessoa do bem, é apenas covarde!

Gil deu um sorriso amarelo e ela continuou: “Diante de uma situação que coloque em risco quem está ao nosso lado, temos que agir com firmeza! É minha natureza defender quem está ao meu lado [37]. Mas é claro que para defender, eu tenho que saber alguma coisa. Daí a importância da linhagem combativa”. Gil achou curioso e por fim, concordou!


Então Daiane continuou sua explanação sobre honra, caráter e lealdade. Sobre Honra disse que honrados são aqueles que são justos, nem bons e nem maus, mas justos [38]. Disse também que pessoas honradas são aqueles que cumprem seu dever, são honestas. Fez diferença entre honra e orgulho. E criticou duramente as pessoas “espertas” - pois aí não há honra nenhuma. Deu vários exemplos e Gil se questionou sobre sua honra.

Em seguida falou do caráter de um kiraya. Dizendo que isso se refere a uma pessoa que tem os mesmos valores em qualquer ambiente. Se referiu a assumir suas responsabilidades e tirou uma dúvida do Gil: mudar de opinião não é, necessariamente, falta de caráter - afinal, um kiraya não deve estar comprometido com o erro! Se pensava algo que descobriu que não é bem assim, deve-se mudar de opinião, sem problemas. Mas deixou claro que mentiras destrói o caráter.

E, para encerrar, falou da importância da Lealdade. Explicou a importância de cumprir com a palavra, bem como a lealdade aos códigos e leis. Falou da lealdade ao kyan-pô, aos mestres, mas deixou claro que lealdade não é submissão e nem desculpa para não se caminhar com suas próprias pernas. Frisou que uma pessoa arrogante facilmente quebra sua lealdade.


Gil estava encantado! Que informações incríveis. Cada vez mais ele queria ser um kiraya! Anotava tudo (sim, ele levou um caderninho e uma caneta!)

Ainda seguindo as orientações do monge Matias, Izy começou a falar sobre as formas de pensar ou a mente de um kíraya. Explicou que além de seguir os códigos de honra, caráter e lealdade, ele deverá ter uma mente capaz se analisar o mundo de uma forma mais ampla. E para que isso acontecesse ele deve prezar cinco aspectos a forma de pensar:

Izy explicou que um guerreiro deve pensar de forma Equilibrada (ou seja, sem extremismo), de forma Ponderada (isto é, analisar melhor as pessoas, os fatos, os objetivos...ser mais minucioso e menos impulsivo), sem Dogmatismo (isto é, não ignorar que há mais coisas no mundo do que nossa limitada percepção pode nos mostrar, porém não ser tão ingênuo para absorver ideias e conceitos de misticismo fanático ou dogmas questionáveis). Também deve pensar de forma Realista (deve substituir ideias mirabolantes ou insensatas por um raciocínio límpido e lógico) e por fim, pensar de forma Bondosa (ou seja, olhar o mundo com olhos bondosos e pacíficos buscando e compreendendo o amor que há dentro dos indivíduos, pois até uma atitude grosseira pode esconder um coração amoroso e ferido. Ver com bons olhos é exercitar o amor).[39]


Estavam voltando para o hotel e agora, segundo as orientações de Mathias, estava na hora de Patrícia falar: Rapaz, eu quero que você saiba que técnicas de luta não são, em si, algo positivo nem negativo. Mas o que você faz da luta é o que importa. Pois tudo na vida tem polaridade, então você pode lutar no aspecto negativo e virar um sujeito briguento ou lutar no aspecto positivo e virar um guerreiro. Gil não se conteve:

- Como você, uma menina pequena, conseguiu vencer aqueles caras? Que técnica é essa?

- Isso não é apenas técnica. Muitas pessoas podem ter uma arma na mão e apanhar de outro que não tem nada. Não é só técnica, é poder interior.

Ela fez uma pausa, olhou para as amigas e perguntou: “Acha que devo falar de thiofei para ele?” - Ambas fizeram não com a cabeça, então ela disse:

- Seu poder interior será devidamente explicado pelo mestre Nanak. Aguarde isso, Tá bom?

Meio inconformado, concordou. Fez um breve silêncio e disparou:

- Se tudo tem polaridade, os kirayas são um lado de uma moeda. Qual é o outro lado?

As meninas ficaram surpresas com tal pergunta. Ficaram inquietas, sem saber se deviam ou não responder. Mas Daiane quebrou o silêncio e explicou:

- Existem guerreiros que não seguem os códigos de honra, caráter e lealdade. Não buscam melhorar para ajudar a humanidade, pois só pensam em si mesmos. Eles são exatamente o oposto de kirayas. São os toripas. A Luz não é o objetivo deles. Às vezes parecem bons, pois ocultam a maldade.

Gil arregalou os olhos e pensava: “Caramba! Tem isso também?!”

Enquanto caminhavam em silêncio, Gil tentava digerir tudo o que estava aprendendo e fazia suas anotações. Surgiu então uma dúvida:

- Eu li que Buda largou a família e o filho para realizar sua busca espiritual, isso não é egoísmo?


Izy, compadecida da inocência do rapaz, lhe explicou carinhosamente:

- Buda não fez isso para se livrar de suas responsabilidades, ele fez isso por compaixão à humanidade. A virtude de uma pessoa não se avalia em termos de ações externas, mas de motivadores internos, de onde brota tal ação.

- Isso se chama chongdong[40], seu mestre irá lhe explicar isso na momento certo - completou Daiane.


Já estavam na frente do hotel onde estavam hospedadas. Gil perguntou se poderia vê-las ainda essa semana, mas descobriu que partirão amanhã. Porém, para surpresa dele, Izy lhe deu um telefone dizendo:

- Ligue para ele amanhã, ele vai passar por Brasília. É um kiraya também. Agende para ter uma conversa. Creio que ele ficará 2 horas no aeroporto, aguardando vôo. Só espero que não tenha briga dessa vez - as três riram.

Já era tarde, Gil foi para casa empolgado!!


[35] Quando uma relação acaba e não se coloca um ponto final, ela fica assombrando novas relações!

[36] Esse nome de poder pode, em situações raras, ser recordada por um mestre e repassada ao discípulo. Porém o mais desejável é que a pessoa descubra por si mesmo. No meu caso, quando eu descia uma rua e ouvi uma voz me chamar, embora nunca tivesse ouvido tal nome, sabia que era meu nome interno.

[37] Ela parece levar muito a sério o conselho nº 17 que diz: “Proteja quem está ao seu lado”.

[38] A justiça deve trabalhar em sintonia com a misericórdia!

[39] Sobre as formas de pensar, veja os vídeos no youtube:

Forma de Pensar de um Kiraya 1 Equilibradohttps://youtu.be/n8eFQdd-mhc Forma de Pensar de um Kiraya 2 Ponderadohttps://youtu.be/ObyHjk60qsU Forma de Pensar 3 Sem fanatismohttps://youtu.be/BQI8oC2eDnA Forma de Pensar de um Kiraya 4 Realistahttps://youtu.be/wcL49YnRZ4E Forma de Pensar de um Kiraya 5 Bondadehttps://youtu.be/FwLygYorT-4

[40] Chongdong é uma complexo e importante assunto dentro de curso de kyan-po. Falaremos disso mais tarde.


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